Disseram por aí que a gente deve procurar por quase tudo, menos amor e morte. Que essas duas coisas chegam sozinhas, quando decidem.
Pensei nisso numa tarde comum, dessas em que o tempo parece suspenso entre um compromisso e outro, enquanto eu pesquisava proteína capilar no celular, sentada perto da janela. A luz entrava torta, atravessando o vidro como se também estivesse cansada.
O cabelo vinha quebrando mais do que o normal. Queria entender se era falta de queratina, colágeno, alguma coisa que tivesse nome. Sempre achei mais fácil lidar com o que pode ser nomeado. Uma aba aberta levou a outra. De proteína capilar para ingestão diária. De ingestão para massa magra. De massa magra para sarcopenia. Em poucos minutos, eu já estava lendo sobre perdas silenciosas, dessas que acontecem mesmo quando ninguém percebe, mesmo quando tudo parece sob controle.
Vivemos tentando consertar o corpo como se ele fosse uma casa antiga que insiste em ranger. A tirzepartida aparece como promessa moderna, quase elegante, enquanto a sarcopenia ronda em silêncio, retirando força aos poucos, como quem apaga lâmpadas em cômodos que a gente já não frequenta. Ninguém fala da perda como parte da estrutura. Só da manutenção. Só do esforço contínuo para manter tudo de pé.
Lacan passou por isso antes de todos nós e avisou. O desejo não se resolve. A falta não é erro de cálculo, é fundação. Amar não é completar, é circular em torno do que nunca fecha. Ainda assim, seguimos tentando administrar o afeto com a mesma lógica que usamos para suplementos, diagnósticos e metas. Chamamos de maturidade o que muitas vezes é só medo bem organizado.
Talvez por isso a geopolítica apareça na minha cabeça como aparecem certas lembranças antigas. O mundo discute a Groenlândia como se fosse possível possuir o frio, negociar o silêncio, administrar o que nunca pediu dono. A Venezuela sangra em alguma manchete distante, e chamam isso de estratégia, como se corpos fossem notas de rodapé. Tudo parece uma variação do mesmo gesto: tentar controlar o que resiste.
Percebi isso com clareza num almoço banal. Um restaurante claro demais, mesas próximas, conversas se misturando. Eu sempre peço peixe e fico olhando, meio distraída, os filés que chegam às outras mesas. Hoje pedi filé. Todos os outros pediram peixe. E ali, por um segundo ridículo e honesto, eu nunca me odiei tanto.
Não era o prato. Era o deslocamento. Não queria o filé, queria o que estava sendo escolhido. A grama do vizinho nunca foi mais verde, só foi mais olhada. O desejo não nasce do objeto, nasce do olhar que repousa sobre ele. Quando o outro escolhe, aquilo ganha peso, quase dignidade.
O problema é que a gente vive assim. Ajustando o próprio pedido ao pedido alheio. Escolhendo com base no desejo do outro e depois estranhando o gosto do que chega. Como casas construídas com plantas trocadas, onde nada encaixa direito, mas ninguém sabe exatamente por quê.
Voltei para o celular depois do almoço. Proteína capilar. Reconstrução. Palavras bonitas para a velha tentativa de conter o desgaste. No fundo, a gente aprende a economizar energia. Aprende a se conter, a estourar antes do curto, a virar fusível para evitar incêndios maiores.
Procuramos explicação na química, na física, na psicanálise, no noticiário, na bula do remédio. Tentamos entender o quase. O quase amor. O quase nós. O quase casa. Esse território onde nada termina de vez, mas nada começa inteiro.
Talvez o erro esteja em querer entender tudo. Amor e morte não respondem a pesquisa nenhuma. Eles atravessam corredores sem mapa, entram por portas que a gente jurava trancadas.
Fechei o navegador sem comprar nada. O cabelo continuava ali, do mesmo jeito. O mundo também. E eu segui, com essa sensação estranha de quem começa a desconfiar que não é a grama do vizinho que é mais verde. É só a nossa que a gente já não olha com cuidado suficiente.
quase tudo (01/2026).

