Rua Oca – Onde tudo reverbera

As ruas sussurram memórias

  • Todas as estradas levam a Roma

    O bar estava cheio demais para uma terça-feira.


    Não era um cheio que lembrasse alegria. Tinha algo urbano e triste. Era feito de gente que prolonga a noite para atrasar a vida. Eu ouvia quando a porta se abria no final da escada. As pessoas tinham pressa. No fundo, eu desconfio que era uma forma de manter o controle de uma rotina que consome. Talvez fosse um jeito poético de dançar com a rotina e brindar com o destino.


    A madeira escura das mesas absorvia a luz baixa. Garrafas alinhadas atrás do balcão como se fossem vitrais alcoólicos. Havia televisões presas às paredes transmitindo jogos que não eram assistidos. Nem tudo na vida é percebido, afinal. O som era um amontoado de pequenas colisões. Copos tocando copos. Cadeiras arrastadas. Risadas breves.


    Do lado de fora, a cidade parecia úmida e elétrica. Eu sei por que toda vez que a porta se abria uma rajada de vento entrava e me passava pelos ombros feito um abraço rápido e sem jeito. Do lado de dentro, tudo tinha aquela penumbra confortável de lugares que sabem esconder pessoas. Talvez, até sentimentos.


    Sentei-me perto da parede, de frente para uma mesa pequena demais para duas pessoas e grande demais para alguém sozinho.

    Pedi uma cerveja. Veio gelada, com pequenas gotas escorrendo pela garrafa e formando um círculo úmido na madeira. Por alguns minutos, me ocupei em observar o lugar e as pessoas. Não era interesse genuíno, mas me impedia de olhar para minhas próprias ideias desenhadas em folhas rasuradas.


    A garrafa deixava um círculo perfeito sobre a mesa. Passei o dedo pela borda fria, como se tentasse apagar um caminho. Alguns caminhos nunca se apagam. Não consegui. E então, lembrei. Outra mesa. Outra noite. Outro quarto.


    A luz também era amarela. Abrandava o mundo e fazia os objetos parecerem mais íntimos do que eram. Havia duas garrafas de cerveja na mesa de cabeceira. A minha gelada demais para ser bebida com pressa. A dela já pela metade, embora ela segurasse com certa hesitação. Parecia exigir mais coragem que uma garrafa leviana num quarto de hotel merecia.


    Ela estava sentada na beira da cama, uma das pernas dobradas sob o corpo. O cabelo preto derramado sobre os ombros e parte do rosto. O cabelo dela era denso, profundo, parecia absorver a luz e guardar um ou dois segredos. Nos braços, as tatuagens surgiam e desapareciam conforme ela se movia. Tinham qualquer coisa de sonho mal explicado, de mapa feito à mão por alguém que já esteve em lugares que não constam em atlas geográficos por aí.


    Uma guitarra leve. Bateria constante. Uma melancolia dançante dos anos 80. A música vinha baixa do celular apoiado perto do travesseiro. Ela era devota desse tipo de som. Dizia que as canções entendiam o tempo e a vida. Eu concordo. Tem música que diz em três minutos o que algumas pessoas não conseguem formular em toda uma vida.


    Ela tinha ideias sobre todas as coisas.
    Não era daquele tipo de gente que fala demais e joga palavras ao vento como quem joga migalhas aos pombos. Era de um tipo raro como se já tivesse pensado o mundo antes de abri-lo em voz alta. Teorias inesperadas e gestos precisos. Falava do futuro como uma criatura arisca, possível de atrair apenas com silêncio e alguma delicadeza.


    Nunca lhe faltavam palavras, mas até o silêncio dela era deliberado.
    Naquela noite, porém, houve um momento em que ela não disse nada. Ficou com a garrafa entre os dedos, olhando o rótulo. As gotas caindo. Ela parecia querer atrasar o tempo.

    Perguntei o que era. Ela demorou um pouco. Sorriu sem humor. Daquele jeito de quem se desculpa por existir antes de causar qualquer incômodo.


    “Talvez… eu não deva beber na sua frente”, respondeu como se sussurrasse para o próprio destino. O destino sempre tão incerto.


    Perguntei por quê.


    Ela deu de ombros. Um gesto pequeno que não escondeu a vergonha.
    Então ela me disse que não sabia explicar. Confidenciou que às vezes tinha impressão de que sempre estava fazendo alguma coisa errada. Como se houvesse uma voz dentro dela que se encarregava de transformar qualquer escolha em culpa.


    O quarto ficou quieto por alguns segundos. A música continuava tocando, mas parecia longe. Como se viesse de outra construção, outro andar, outra vida.


    “Você não devia escutar essa voz. Desconfio que ela te odeia.”, respondi.

    Ela me olhou. Não foi um olhar rápido, nem desses que passam e seguem adiante. Foi demorado. Imóvel. Pareceu que algum lugar escondido no pequeno sótão onde ela guardava certas bagunças havia sido atingido. Um lugar difícil. Os olhos dela eram castanhos, mas não de calmaria. Ela carregava a cor do céu quando o temporal já está formado, mas ainda não caiu.


    Ela bebeu um gole demorado. E ela riu.


    Não foi um riso aberto, daqueles que se desenham em piadas ruins. Não foi um riso aberto e nem alto. Foi breve. Incrédulo. Parecia ter escapado antes que ela conseguisse conter. Ela sorriu como uma pequena concessão de crença mundana.


    Mais tarde, quando a música mudou de faixa e a noite tivesse se encarregado de diminuir defesas, ela se aproximou. Veio sem pressa. Segurou meu rosto com as duas mãos. Um gesto perigosamente tranquilo.


    O cabelo caiu um pouco para a frente e ela o afastou com dois dedos antes de me olhar de novo, dessa vez mais perto. Ela não desviava os olhos. Algumas pessoas fecham os olhos quando desejam. Outras quando têm medo. Ela não.


    Havia nela uma atenção absoluta, quase uma curiosidade. Ela queria assistir o que estava acontecendo do começo ao fim. Certas intimidades devem ser vistas ao invés de suportadas no escuro.
    Ela sorriu aquele riso pequeno e conspiratório.


    “Eu amo os seus dentes”, soltou.


    Devo ter feito alguma expressão absurda, porque o riso voltou, mais quente dessa vez. Então aproximou ainda mais o rosto do meu. Sentia sua respiração se misturando a minha.


    “Eu beijaria até os seus dentes”, disse quase em segredo.


    Naquela noite isso me pareceu apenas uma frase bonita e inesperada, mais uma entre tantas coisas improváveis que pareciam nascer nela com tanta naturalidade. Eu lhe disse mais de uma vez o quanto a achava genuína. Hoje sei que não são apenas palavras. São coordenadas. Você escuta uma vez e, sem perceber, volta sempre para o mesmo lugar.


    Em algum momento da noite ela me beijou ao som da minha banda favorita. Nunca contei isso a ela. A música já estava tocando e, por um momento, me pareceu impossível decidir o que parecia mais irreal: o refrão, a boca dela ou aquela sensação estranha de que ela havia chegado na minha vida pontualmente como uma coincidência que sempre coincide.


    Despertei quando um copo caiu no chão em algum lugar daquele bar. Parecia acordar de uma ressaca ou abrir os olhos e, sem preparação, já encontrar a luz do sol. A cerveja ainda estava sobre a mesa, mas a espuma já tinha descido e o círculo úmido continuava ali, um pouco mais largo e um pouco menos nítido.
    Olhei em volta.


    A música do bar tinha mudado. Agora havia a batida clara de outra canção antiga, luminosa demais para aquele horário. Não é possível atravessar a madrugada sem lhe dever nada. A música parecia brincar com a tristeza.


    Paguei a conta e saí.


    A rua estava fria. Um frio que acompanha. Entrei no carro e fiquei alguns instantes sem ligar o motor. Segurava a chave com força exagerada. Olhava meu reflexo no vidro do retrovisor. Dei partida. O rádio acendeu junto com o painel e, como se a noite tivesse decidido zombar das minhas desventuras, a mesma atmosfera musical continuava ali. Batidas antigas. Canções que ela cantava pela metade, no tom exato em que uma pessoa canta uma música que ama sem querer fazer espetáculo.


    Desliguei o rádio.
    A música continuou em mim e tocava em lugares que não têm botão de desligar.
    Dirigi um tempo sem prestar atenção nas placas. A cidade ia ficando rarefeita, depois os postes, as casas. As luzes. Parei num posto de gasolina quase vazio. A luz branca tinha algo de hospital. Enquanto abastecia, vi uma mulher atravessar o pátio em direção à loja de conveniência.


    Cabelo preto, jeans escuro e jaqueta de couro.


    Meu corpo reagiu antes da razão e, por um segundo idiota, inteiro e humilhante acreditei que era ela. A mulher virou o rosto. Não era. Nunca é. Tive uma sensação desagradável de quem é flagrado por si mesmo cometendo pequenos atos que não inspiram orgulho.


    Segui dirigindo até em casa. O apartamento estava escuro, exceto pela luz azulada do micro-ondas marcando uma hora que eu não acreditava. E nem queria saber. Tirei os sapatos na entrada. A geladeira fazia aquele zumbido baixo e monótono que a gente só escuta quando todo o resto está em silêncio.


    É interessante, existe um silêncio que não é ausência de som. Talvez seja ausência de continuação. Fiquei no escuro sem acender a luz. No escuro as coisas ainda se conservam com a possibilidade de serem outras. Uma sala escura pode conter qualquer vida. Pode conter alguém no sofá. Pode conter o ruído de unhas felinas sobre o piso. Pode conter uma mulher de cabelo preto cantarolando um refrão antigo sobre governar o mundo enquanto abre uma cerveja e pergunta se você acredita que um dia teria coragem de ter filhos.


    No escuro, tudo ainda é quase.


    Acendi a luz e a verdade retomou suas proporções habituais. Não era exatamente um vazio de gente. Sempre existe um alguém. Sempre aparece em uma sexta-feira à noite e até em uma segunda pela manhã.


    Sempre aparece diante de você em bares, sorri em postos de gasolina, atravessa a rua, pede outra rodada, manda mensagem em horários indevidos, entra e sai da vida com a mesma facilidade que se troca de faixa no trânsito. Sempre tem um risco pequeno e calculado de colisão. Mas sempre tem.


    Era um vazio específico cujo nome nem o destino ousava dizer. Não tem forma porque foi feito do quase. Do que é interrompido. Do que é interceptado antes de chegar ao ponto final. Como um barco que nunca chega ao porto. E um marinheiro que nunca retorna para casa.


    O que doía não era exatamente ela.
    Era a casa que nunca cheirou a ela. Era o gato cinza que nunca pisaria naquele chão. Era a música que nunca tocaria na cozinha em uma manhã comum de domingo fazendo torradas. Era toda conversa que nunca atravessaria a realidade para além do território das hipóteses não comprovadas.


    Passei meses acreditando que sempre pensava nela, mas o que me perseguia era a arquitetura inteira de um futuro que não existiu. A vida doméstica, secreta e quase ridícula em sua simplicidade que me pareceu possível.


    Era pior, muito pior. Eu não sofria por uma presença, sofria por um mundo inteiro. Uma combinação específica de luz, voz, olhar e promessa que se desfez antes mesmo de aprender a durar.


    Eu escovava meus dentes com uma força desnecessária. A escova vermelha desenhando círculos. Quando terminei, lembrei…


    “Eu beijaria até seus dentes”.


    Algumas frases são assim.
    Você escuta uma vez… e passa o resto da vida voltando para o mesmo lugar.

  • idealização defensiva

    Ela gosta de água com gás da garrafa vermelha. Sempre escolhe sem hesitar, como se aquela cor resolvesse pequenas indecisões do dia. Descobri isso cedo, junto com outras coisas que fui anotando sem perceber. As tatuagens surrealistas espalhadas pelo corpo, por exemplo. Não contam histórias lineares. São imagens soltas, meio fora do tempo, como lembranças de algo que talvez nunca tenha acontecido.


    Ela me abraça quando a música muda de tom. Não pergunta. Apenas acontece. Quando a letra escorrega para o amor, para o encontro, ou para qualquer palavra que chegue perto demais do que a gente evita dizer. O abraço vem firme, breve, como se fosse um gesto aprendido em outro lugar. Em outro tempo.


    Usa tênis preto quase sempre, camisa amassada e calça com rasgo no joelho. Carrega um ar de estrada mesmo quando está parada. Já me contou de cidades pequenas, de trabalhos que não duraram, de vontades que mudaram sem aviso. Fala do passado com a tranquilidade de quem não tenta corrigir nada. Eu escuto com atenção excessiva.


    Não gosta de agridoce. Diz que confunde as papilas gustativas, que o corpo não foi feito para lidar com estímulos opostos ao mesmo tempo. Gosto dessa frase. Ela explica muita coisa sem perceber. Ainda assim, vive escolhendo caminhos tortos, aceitando convites improváveis, entrando em situações sem saber direito onde vai dar. Um senso de aventura desalinhado que, de algum jeito, conversa com o meu.


    Ela percebe minhas manias. A fixação pela cor laranja, por exemplo. Principalmente quando aparece em tênis ou munhequeiras. Diz que é fácil me reconhecer de longe por causa disso. Eu nunca soube se isso era elogio ou constatação. Preferi guardar como cuidado.


    Provavelmente a gente vai gritar o refrão de Head Over Heels num feriado chuvoso, descendo para São Paulo. A estrada molhada, o vidro embaçado, a música alta demais para conversas delicadas. Nessas cenas, tudo funciona. O tempo colabora. O silêncio não pesa. Não há esforço para existir.


    Essas imagens sempre me pareceram sólidas. Organizadas. Como se já tivessem passado pelo teste do real. Não exigem decisão, nem risco, nem aquela exposição que costuma cobrar caro depois. Elas apenas se apresentam, completas, oferecendo uma espécie de repouso.


    Só bem mais tarde, quase como quem tropeça num pensamento inconveniente, percebo que nenhuma dessas cenas carrega desgaste. Não há atrito, nem erro, nem o cansaço que acompanha qualquer convivência verdadeira. Tudo permanece inteiro porque nunca foi atravessado.


    Talvez seja isso que a psicanálise tenta dizer quando fala de idealização. Não como exagero romântico, mas como defesa silenciosa. Um jeito de amar sem tocar. De construir uma história onde o outro ganha passado, gesto, gosto e futuro, mas permanece protegido do real.


    Como casas antigas que a gente admira por fora, mantendo as janelas fechadas para que o tempo não entre. Não por falta de desejo, mas por medo de ver o que o tempo sempre faz quando é convidado a ficar.

    idealização defensiva (06.02.2026)

  • quase tudo

    Disseram por aí que a gente deve procurar por quase tudo, menos amor e morte. Que essas duas coisas chegam sozinhas, quando decidem.

    Pensei nisso numa tarde comum, dessas em que o tempo parece suspenso entre um compromisso e outro, enquanto eu pesquisava proteína capilar no celular, sentada perto da janela. A luz entrava torta, atravessando o vidro como se também estivesse cansada.


    O cabelo vinha quebrando mais do que o normal. Queria entender se era falta de queratina, colágeno, alguma coisa que tivesse nome. Sempre achei mais fácil lidar com o que pode ser nomeado. Uma aba aberta levou a outra. De proteína capilar para ingestão diária. De ingestão para massa magra. De massa magra para sarcopenia. Em poucos minutos, eu já estava lendo sobre perdas silenciosas, dessas que acontecem mesmo quando ninguém percebe, mesmo quando tudo parece sob controle.


    Vivemos tentando consertar o corpo como se ele fosse uma casa antiga que insiste em ranger. A tirzepartida aparece como promessa moderna, quase elegante, enquanto a sarcopenia ronda em silêncio, retirando força aos poucos, como quem apaga lâmpadas em cômodos que a gente já não frequenta. Ninguém fala da perda como parte da estrutura. Só da manutenção. Só do esforço contínuo para manter tudo de pé.


    Lacan passou por isso antes de todos nós e avisou. O desejo não se resolve. A falta não é erro de cálculo, é fundação. Amar não é completar, é circular em torno do que nunca fecha. Ainda assim, seguimos tentando administrar o afeto com a mesma lógica que usamos para suplementos, diagnósticos e metas. Chamamos de maturidade o que muitas vezes é só medo bem organizado.


    Talvez por isso a geopolítica apareça na minha cabeça como aparecem certas lembranças antigas. O mundo discute a Groenlândia como se fosse possível possuir o frio, negociar o silêncio, administrar o que nunca pediu dono. A Venezuela sangra em alguma manchete distante, e chamam isso de estratégia, como se corpos fossem notas de rodapé. Tudo parece uma variação do mesmo gesto: tentar controlar o que resiste.


    Percebi isso com clareza num almoço banal. Um restaurante claro demais, mesas próximas, conversas se misturando. Eu sempre peço peixe e fico olhando, meio distraída, os filés que chegam às outras mesas. Hoje pedi filé. Todos os outros pediram peixe. E ali, por um segundo ridículo e honesto, eu nunca me odiei tanto.


    Não era o prato. Era o deslocamento. Não queria o filé, queria o que estava sendo escolhido. A grama do vizinho nunca foi mais verde, só foi mais olhada. O desejo não nasce do objeto, nasce do olhar que repousa sobre ele. Quando o outro escolhe, aquilo ganha peso, quase dignidade.


    O problema é que a gente vive assim. Ajustando o próprio pedido ao pedido alheio. Escolhendo com base no desejo do outro e depois estranhando o gosto do que chega. Como casas construídas com plantas trocadas, onde nada encaixa direito, mas ninguém sabe exatamente por quê.


    Voltei para o celular depois do almoço. Proteína capilar. Reconstrução. Palavras bonitas para a velha tentativa de conter o desgaste. No fundo, a gente aprende a economizar energia. Aprende a se conter, a estourar antes do curto, a virar fusível para evitar incêndios maiores.


    Procuramos explicação na química, na física, na psicanálise, no noticiário, na bula do remédio. Tentamos entender o quase. O quase amor. O quase nós. O quase casa. Esse território onde nada termina de vez, mas nada começa inteiro.


    Talvez o erro esteja em querer entender tudo. Amor e morte não respondem a pesquisa nenhuma. Eles atravessam corredores sem mapa, entram por portas que a gente jurava trancadas.


    Fechei o navegador sem comprar nada. O cabelo continuava ali, do mesmo jeito. O mundo também. E eu segui, com essa sensação estranha de quem começa a desconfiar que não é a grama do vizinho que é mais verde. É só a nossa que a gente já não olha com cuidado suficiente.

    quase tudo (01/2026).

  • hiperfoco

    tem dias
    em que você não sai
    nem quando eu imploro


    fica ali
    ocupando a parte exata
    onde o pensamento cansa


    não é lembrança
    é repetição
    dessas que não ensinam nada
    só gastam


    te penso
    com a obsessão feia
    de quem revisita um erro
    sabendo que não há correção


    o mundo segue
    e isso me ofende


    as pessoas riem
    marcam horários
    fazem planos
    como se não fosse um absurdo
    continuar


    e eu aqui
    presa
    num detalhe teu
    que não serve pra nada
    mas me desmonta inteira


    não é amor
    é falha


    é a mente tentando salvar
    o que já morreu
    como quem sacode um corpo
    pra ver se ainda responde


    sei que você não volta
    e isso já nem é o pior


    o pior é perceber
    que mesmo ausente
    você ainda me ocupa
    com uma eficiência cruel


    não há saudade bonita
    há vigilância


    esse estado ridículo
    de atenção permanente
    a algo que não existe mais


    fiquei me perguntando
    se o meu pensamento esbarrava no teu
    fazendo a gente se pensar
    por acidente


    mas lembrei
    como um acaso cruel
    das voltas que você dava a mais
    pra não me ver em carne


    e entendi
    tarde demais
    que pensamento não encontra
    quem desvia o corpo


    eu jamais seria
    tua projeção espiritual


    quando você finalmente sair
    da minha cabeça
    não vai ser alívio
    vai ser luto atrasado


    porque enquanto eu te pensava
    com tanto rigor
    você
    simplesmente
    não pensava

    hiperfoco (01/2026)

  • fusível

    quando a dor se desenha feito caos
    eu escondo tristezas
    pra não faltar


    a casa aprende antes de mim
    há correntes que passam além do seguro
    e ninguém avisa
    só continuam


    é um ativo arriscado
    amar acima da própria amperagem
    fingir que o fio aguenta
    porque sempre aguentou


    o fusível não negocia
    ele cede
    antes que tudo incendeie


    eu também


    há algo sedutor
    em deixar passar demais
    os analistas conhecem bem essa história
    chamam de repetição
    de retorno ao mesmo ponto


    deixo queimar uma parte
    pra que o resto permaneça
    em funcionamento mínimo


    não é nem coragem
    é contenção de danos


    pra lembrar
    de toda descarga elétrica
    que já vivi
    em meio
    às minhas pequenas multidões


    pra lembrar
    que a luz falha primeiro
    a escuridão
    cumpre

    fusível (01/2026)

  • resíduo

    o que há de ser nós
    se não uma nota de rodapé
    que diz tanta coisa
    como poderia não dizer?
    mas ninguém ousou colocar no texto


    dos desenhos dos teus lábios
    que desmancham os meus
    em súplicas tardias
    nada ficou
    nem obra
    nem rascunho


    quão triste é pensar nisso
    depois de um dia bom
    em que ondas de calor
    flutuaram por entre nuvens de algodão


    triste é pensar nisso nos dias ruins também
    desses dias
    em que até os oásis
    não trazem água


    penso na tua voz
    dizendo coisas bonitas
    enquanto tuas mãos
    desenham tranças
    no teu cabelo negro


    e percebo
    que o que eu chamava de nós
    era só um instante
    mal apoiado no tempo


    porque enquanto ecoava em mim
    feito casa vazia
    em noite de vento
    em ti
    já era manhã


    e o que ficou
    não foi saudade
    nem lembrança


    foi isso
    esse quase
    esse resto


    resíduo

  • eco

    tem vozes que me ecoam na cabeça por meses
    as partes boas, as ruins
    e os nomes carinhosos sussurrados numa tarde de terça
    ou era quinta, não tenho certeza


    que ironia lacaniana, eu diria
    amar é dar o que não se tem a quem não quer


    isso ecoa


    os vazios de alguma partida
    preenchem mais que um silêncio brusco
    fiquei perdida algumas vezes
    como quem pega um elevador
    e fica meio perdida toda vez que a porta abre
    se perguntando se é ali que devia descer


    isso ecoa também


    já desci no andar errado uma ou duas vezes
    e fiquei esperando
    até o elevador voltar
    às vezes não volta, sabia?


    ela não sabe que ela é feita de névoa e partida
    e que ecoou em mim desde o primeiro dia
    mas a partida
    parece sempre mais alta que a chegada


    e ainda hoje
    sem correção
    de forma crua
    como quem aprende tarde demais
    que eco não responde

    ecoa.

    eco (01/2026)

  • quem explica?

    Entrei num café simpático dia desses. Cortinas rosas. Cadeiras em tons pastéis. Um burburinho meio incessante sobre assuntos diversos. Ouvi algo sobre uma briga de herança de família. Duas mulheres conversavam sobre os desafetos do trabalho. Uma senhora lia um livro sem intenção alguma de disfarçar a capa, tão erótica quanto assertiva.


    Pedi um café expresso duplo. Tinha sido uma manhã longa, dessas feitas de reuniões e amenidades disfarçadas de decisões importantes. Logo uma moça de avental e lenço na cabeça veio com um sorriso treinado, uma bandeja e meu café.


    Notei que havia um pequeno brigadeiro ao lado. O melhor que já comi. Não sei se havia técnica elaborada, se foi feito numa panela de fundo grosso ou se usava algum chocolate importado cujo nome as pessoas gostam de pronunciar errado. Só sei que era o melhor. E isso, por si só, já me pareceu estranho.


    Pedi outro café unicamente por causa do brigadeiro. E ali comecei a pensar em como algumas coisas funcionam sem explicação razoável. A física tenta. A química chega perto. A neurociência fala em memória afetiva, dopamina, associações inconscientes. Mas nada disso explica direito por que aquele doce, naquele dia, parecia tão definitivo.


    Talvez seja isso que a gente chama de acaso bem colocado. Um encontro improvável entre expectativa baixa e resultado alto. Um erro estatístico que dá certo. Como certas pessoas que entram na nossa vida sem aviso e, por algum tempo, fazem tudo parecer mais simples do que realmente é.


    Olhei em volta de novo. A briga da herança continuava. As queixas do trabalho também. A senhora seguia firme no livro. O mundo mantinha sua regularidade caótica, enquanto eu me ocupava de um brigadeiro e uma pilha de papéis ao meu lado.


    Vez ou outra surgia um silêncio breve, marcado por uma falsa sincronia de pessoas diferentes bebendo ao mesmo tempo. A atendente seguia atenta aos possíveis novos pedidos.


    Olhei meu café e lembrei que, quando mais nova, nunca gostei de café forte. Agora bebia expresso sem açúcar. Também não gostava de água com gás ou de comidas agridoce. Tudo mudou.


    Ainda falho em tantas coisas que simplesmente não sei explicar. O amadurecimento me veio em detalhes que talvez importem pouco, como o próprio paladar. Mas ainda insisto em construir algo grande demais toda vez que sinto algo brevemente parecido com o amor. Um Burj Khalifa sem fundação. Quando desaba, se forma um desastre sem nome que ninguém, nem mesmo o destino, tem coragem de assinar. O destino sempre tão discreto.


    Ninguém explica. Em algum ponto parece teimosia. Mas aí lembro que Freud já dizia que as neuroses podem ser tão perigosas quanto doenças que a gente leva a sério. O número de pessoas doentes só aumentou. Isso me fez pensar que o mundo ignora avisos o tempo todo. Aparentemente, eu também ignoro sinais tão grandes quanto a abóbada de alguma basílica italiana.


    Talvez ninguém explique. E talvez esse seja um acordo honesto: aceitar que nem tudo precisa ser entendido, algumas coisas apenas acontecem. E, quando acontecem, basta pedir outro café.

    quem explica? (27/12/2025)

  • inércia

    O aeroporto parecia um desses lugares onde o tempo entra em repouso. Simplesmente não passa. As pessoas sentadas, as malas alinhadas, o painel repetindo a mesma informação como um experimento que insiste no mesmo resultado.

    “Passageiros do voo 3267 com destino a Belo Horizonte informamos que estamos trabalhando em capacidade máxima, por isso convidamos os passageiros dos grupos 3 e 4 a despachar sua bagagem gratuitamente.”

    A mensagem se repetia. Mudava o destino, nunca a fala. Robótica. Em algum ponto ele se perguntou qual era o motivo de os voos estarem sempre em capacidade máxima, como se tudo estivesse permanentemente operando no limite do aceitável.

    Pensou que a física explicaria aquilo com facilidade. Corpos tendem a permanecer no estado em que se encontram quando nenhuma força externa atua sobre eles. Não era resignação propriamente dita. Era inércia.

    Sempre acreditou que a vida funcionava assim. Sistemas buscam o menor gasto de energia, o caminho mais econômico, o ponto onde o atrito diminui. Isso é biológico, físico e químico. O que exige força demais costuma estar fora do equilíbrio. O que dura encontra, cedo ou tarde, um estado estável. Não porque seja eterno, mas porque parou de lutar contra o próprio desenho.

    Havia algo irônico naquele lugar feito de malas coloridas, filas e café superfaturado. Ele se levantou. O voo seguia atrasado. Apalpou o bolso da jaqueta apenas para conferir se os documentos estavam ali. Metódico.

    Foi ali que lembrou da mulher que comprava ouro todo ano. Uma peça só, sempre. Dizia que o ouro era um metal estranho, resistente à oxidação, indiferente ao tempo, incapaz de enferrujar como o resto das coisas. Falava disso como quem fala de química básica, mas o que realmente explicava era outra coisa: valor não nasce do brilho, nasce da permanência. E permanência, inevitavelmente, valoriza.

    Ela dizia que a entropia governa tudo. Que a tendência natural é a desordem. Por isso, manter qualquer coisa exige trabalho. Manter uma rotina, um gesto, uma ideia, um caráter. Permanecer não é passivo. É uma escolha repetida contra o caos. Por isso é difícil.

    Ele pensou nas coisas que já não tentava mudar. Não por medo, nem por cansaço, mas por entendimento. Entender nunca é fácil.

    Como podemos entender a escolha alheia se falhamos miseravelmente em entender as nossas? Pensou novamente nos sistemas buscando o menor gasto energético e imaginou como seria viver assim. Talvez, se aplicássemos isso à vida, não existisse tanta crise de ansiedade, tanto empurrão desnecessário contra o que já pede repouso.

    Talvez viver fosse aceitar que nem tudo precisa ser acelerado, salvo ou corrigido. Algumas coisas apenas continuam. E, quando continuam sem esforço, talvez tenham encontrado o único lugar possível onde fazem sentido.

    inércia, 2025.

  • inventário

    ficaram
    os copos esquecidos na pia
    a xícara com a borda lascada
    o travesseiro sem forma
    a camiseta que eu nunca tive coragem de rasgar

    ficou
    o relógio quebrado segurando o tempo da partida
    o som da porta do fundo fechando quando você se foi
    a rua que nunca leva a lugar algum

    ficou
    uma música que não pede explicação
    mas que eu ainda te explicaria
    por que falava de nós

    o amor
    não ficou

    não ficou nem a dúvida
    nem a vontade de conferir
    se você também sentiu

    não ficou na casa
    não ficou no corpo
    não ficou na meia garrafa de vinho
    esquecida na geladeira

    as rotinas seguem funcionando sozinhas
    às vezes nem é falta
    é organização

    os ruídos da tua partida
    ficaram listados
    no inventário do que foi perdido

    as luzes ainda lembram
    do que foi
    e o que ficou
    é exatamente o suficiente
    para nunca mais voltar

    inventário, 2025.