a casa traz o vento úmido da baía do Guajará, observa Belém com suas onze molduras de luz
tocou Betânia, tocou Caetano, tocou Elis as onze janelas me lembram saudade antiga de quem vê o mundo como se os pedaços se fragmentassem eu entendo essa saudade porque tem dias que eu também fico assim, cheia de paisagens que eu ainda insisto em tentar nomear
às vezes acho que a gente ama como quem abre todas as janelas de uma vez, esperando que a brisa faça sentido mas se o amor não se instala, vira corrente de ar e lembrança sem corpo
toda casa tem uma janela que insiste em lembrar quem não mora mais lá
olhei para a casa das onze janelas mais uma vez e notei que talvez algumas janelas nunca se fechem porque tem ausências que também respiram.
Eu tinha 15 anos quando notei que um par de olhos pode ser a última coisa que vislumbramos ao dormir. Os dela eram castanho claros, cor de sol filtrado por cortina. Tinha um brilho bonito, meio tímido, meio cósmico, como se algum corpo celeste tivesse se distraído perto demais de mim.
Uma vez ela veio me cumprimentar no meu aniversário, o único que passei na escola. Sempre fez parte das minhas pequenas frustrações nunca ter tido parabéns nos corredores. Só aconteceu naquele ano. Mazelas de quem nasce muito cedo, mas, ainda assim, eu jamais trocaria meu fevereiro.
Neguei o abraço dela por pirraça. Ela tinha um cheiro específico demais e meu coração acelerava quando passava perto. Era tão assustador quanto efeito colateral de remédio. Nunca quis sair ao lado dela nas fotos. Tudo sobre ela me assustava, embora eu mal entendesse por quê. Ela não sabe disso e nunca saberá, mas foi quem acordou a poesia em mim.
Eu a revi uma década depois. Ela já não era a pessoa da lembrança. Perdeu os traços de menina, ganhou expressão adulta, outra postura, outro tempo. E eu fiquei ali, olhando, tentando encaixar a mulher que vi na memória que eu guardava. Não encaixava. É normal. As pessoas trocam de rosto quando a vida passa por elas.
E foi nesse reencontro meio torto que percebi uma coisa simples: eu não guardava mais ela. Guardava a sensação. Guardava o susto bom. Guardava a menina que eu fui aos quinze anos, tentando entender o que fazer com um coração acelerado demais.
Foi aos 16 que vivi minha primeira grande perda. Perder minha avó não foi só perder alguém que eu amava. Foi como perder o eixo de uma casa. Ela era a força que mantinha tudo em movimento, mesmo quando ninguém percebia. E quando ela partiu, pareceu que cada pessoa da família se deslocou uns centímetros para longe, como móveis que rangem ao serem arrastados sem aviso. Aos 16, descobri que existem dores que não dá para devolver ao lugar de onde vieram.
O meu Maria veio dela. Mas, se pudesse, eu teria pego mais coisas: a bondade, o jeito de unir pessoas, o não desistir, o amar com uma singularidade que só uma Maria como ela poderia ter ensinado.
Aos 17 também descobri outro tipo de fotografia interna: o retrato da falta de escolha. Eu, acostumada a livros e palavras, tentando aceitar uma vida de números e plantas. Mamãe era categórica quando precisava me colocar no meu lugar. E sempre havia um tom escondido naquele “você não tem outra opção” que me engolia inteira.
Quem diria? Mamãe acertou. Talvez tenha sido sorte, mas existe uma beleza grande demais em rodar tantos quilômetros ao mês, conhecer tanta gente, tanto lugar. E as palavras, as páginas e os livros… nunca me faltaram.
Uma década depois, eu já tinha descoberto coisas demais sobre o amor, sobre família, sobre trabalho, sobre idas e vindas.
Aos 27, entendi a lição mais amarga. Descobri que amar também pode ferir, e que, às vezes, entregamos às mãos de alguém a parte mais vulnerável do nosso peito. Aprendi a duras penas sobre lealdade, fidelidade e partidas. Sobre a crueldade de sorrisos trocados às escondidas que destroem murais inteiros de sentimentos construídos com cuidado demais.
Aos 27, aprendi que amar é arriscar. E que há quedas que ninguém amortece ou precede.
Vivi colecionando lembranças até descobrir que já não me encaixava nelas, como se eu tivesse virado a peça errada do meu próprio quebra-cabeça.
Às vezes me sinto uma obra surrealista procurando espaço nas memórias antigas, todas pintadas em óleo que já secou.
Sempre que recebo visitas, eu arrumo a casa como quem prepara terreno para uma história que talvez nem aconteça. Separo as taças de vinho ou as canecas de cerveja, depende do gosto da pessoa. Preparo tábuas de queijo com um capricho quase cerimonioso, como se cada fatia fosse um pequeno memorial de boas intenções. E sempre faço a mesma pergunta, íntima demais para quem mal chegou:
O que você gosta de beber pela manhã?
Talvez seja só mania. Ou talvez seja essa coisa que tenho de procurar conforto nos detalhes, como pequenos lembretes de que aqui pode ser um bom lugar para ficar.
Lembro da última visita que ficou tempo demais para ser chamada de visita. Não que ela tivesse pedido algo. Mas, de repente, eu estava mudando detalhes da casa que nunca me incomodaram antes. Uma almofada mais clara, uma planta que eu não sabia cuidar, a luz entrando por uma cortina que eu nem gostava tanto. O cuidado com os talheres e com o horário do jantar.
Na época, eu disse a mim mesma que fazia sentido. Que eram ajustes pequenos. Mas hoje eu sei que não eram sobre estética. Eram sobre expectativa.
É curioso como a casa entrega o que a gente tenta esconder. Ninguém percebe de imediato. Mas eu sei onde cada deslocamento começou. E sei exatamente onde terminou.
Quando ela foi embora, os objetos continuaram ali, silenciosos, como cães abandonados que ainda esperam o dono voltar. E eu fiquei algum tempo encarando cada um deles, tentando entender como é que a casa ficou mais clara e eu, de alguma forma, escureci.
Ela escolheu os pratos. E a jiboia, que ela tanto queria, encheu de pequenos insetos. Eu desaprendi a usar as panelas antiaderentes. A mesa, que respeitava o horário do jantar, virou apoio de roupas e mochilas.
Quando a visita finalmente partiu, precisei desmontar os pequenos adereços que construí para a estadia dela. Desfiz tudo como quem assiste à própria autópsia, tentando entender em que momento a casa começou a desmoronar enquanto os travesseiros ainda guardavam o cheiro adocicado e arrogante do perfume dela.
Tive outras visitas depois. Para algumas, mudei a playlist do jantar. Para outras, troquei a cor das toalhas. Em algum momento, deixei de escolher velas de baunilha, como gosto, e passei a acender verbena sem perceber.
Minha casa nunca parece ser boa o suficiente, mas sigo acreditando que sou uma ótima anfitriã. Arrumo mesas, preparo jantares, acendo velas e invento atmosferas inteiras, como quem tenta oferecer abrigo antes mesmo de confirmar se alguém realmente pretende ficar.
Às vezes me pego pensando se já fui recebida assim em outras casas por onde passei. Não lembro. Talvez algumas portas tenham se aberto só pela metade. Talvez eu mesma tenha aprendido cedo demais a entrar tirando os sapatos, falando baixo, agradecendo antes da hora.
E, no fundo, percebo que sempre ofereci o que quase nunca recebi.
Heráclito dizia que ninguém entra no mesmo rio duas vezes. Talvez por isso eu sinta que, a cada mudança feita por alguém que não ficou, uma parte minha foi desviando de curso. No fim, virei rio sem mapa, procurando onde deixei a primeira água.
Às vezes a gente se desaloja só para oferecer abrigo. E quando eu finalmente cansar de mudar a casa por quem não fica, será que basta apagar as luzes para esquecer?
radial leste. sexta à noite. a cidade inteira cuspindo faróis.
as coisas pensadas aqui sempre me levam pra uma estrada sem rumo, como se eu dirigisse dentro de um engavetamento que ainda não aconteceu.
ouvi no rádio: “eu odeio a praia, mas eu ficaria na Califórnia com meus pés na areia.”
e eu pensei que a gente vive assim, odiando coisas que talvez nos salvassem e desejando coisas que talvez nos afogassem.
me lembrei das vezes em que pensei em concessões. eu também odeio a praia, mas já me passou pela cabeça uma ou duas pessoas por quem eu abriria os pés na areia.
luzes de natal me chamam atenção, mas tatuagens nos ombros e nuca chamam mais.
e aí lembro do café de torra média, do terroir do sul de minas, e da cerveja de trigo que é leve, mas sempre me embriaga.
gosto da beleza da imperfeição, mas talvez não dos prédios da capital. meu conceito de wabi-sabi é meio furado.
na casa dela, todo mundo nasce e morre do M como se a letra fosse uma linha do destino costurada antes do nome
uma arritmia cósmica uma montanha de dois picos o destino correndo pelo vale desenhado
carregamos o mesmo traço as mesmas sílabas até certo ponto mas o espelho se quebra e dobramos em esquinas diferentes como quem segue para outros rumos e lugares
o M dela me ressoa como saudade embora eu também o carregue cravado em mim é como se eu não pudesse vê-lo talvez por castigo afinal uso pouco
meu M nasceu de uma única Maria o dela atravessou mulheres que vieram antes cada uma bordando a letra na seguinte como quem entrega destino em silêncio
meu mundo nunca para no M o dela sempre colide por lá nossos caminhos começam no mesmo mar mas as águas que me levam são as mesmas que afogam ela
tenho andado com uma calmaria emprestada dos meus santos.
hoje tem festa, mas está frio. tenho essa mania feia de buscar motivos para faltar ou me atrasar.
aliás, meus atrasos estão ficando recorrentes. acho que perdi o senso de pontualidade. nem sei se um dia eu tive.
às vezes, a calmaria some. meu coração acelera. penso em quem vai estar lá.
sei lá… tem horas em que nossos olhares se cruzam no corredor e eu fico me perguntando se, por algum devaneio festeiro, você vai aparecer.
provável que não.
não faz mal. mas que conste nos arquivos por aí: seria bom se estivesse.
comprei roupas pra ir. até acessórios.
será que tá bom assim? eu não costumava me perguntar essas coisas. céus… será esse teu efeito em mim?
juntei minhas últimas forças. ultimamente tenho me sentido afundando na areia. às vezes tento saltar.
dói os músculos. a mente. a coragem. o orgulho.
não é legal parecer meio perdida o tempo todo. meu corpo parece papel em brasa. às vezes vejo pedaços se desprendendo e sinto o cheiro da própria carne queimando. meu estômago queima junto.
não sei qual a função de juntar palavras mas parece beber água. eu escrevo nos momentos mais improváveis e, quando olho para baixo, tem demônios nos meus pés tentando extinguir minhas últimas bênçãos.
tenho um compromisso às 19h. outro às 22h30.
não queria estar lá. mas consta nos arquivos que não faria falta se eu não estivesse.
acho que falei cedo demais. não sobre amor, mas sobre conhecer.
me perdoa se tentei preencher palavras cruzadas sem saber todas as letras; ou se encaixei peças demais em quebra-cabeças subjetivos que nunca tiveram imagem completa.
a primeira chegou na seca, no auge dos dias quentes. uma presença súbita, como um haicai escrito sem precisão.
o sorriso dela me lembrava Akihabara: as luzes piscando como se a cidade inteira fosse feita pra desorientar viajantes.
e eu, sempre turista demais nos afetos, fiquei ali parada, olhando, tentando entender o sumiço dela no meio da estação. sem resposta, sem riso, sem entendimento.
a segunda me chegou nos dias de inverno, quando até os ossos mal colados doem ao tocar o chão. ela tinha calor nas palavras, no sorriso, nas ideias, mas o coração dela era fogo vivo: uma chama bonita, intensa, mas que nunca decidia se crescia ou se apagava.
precisei ir como quem corre de um incêndio descontrolado em meio à palhada seca, sabendo que a neblina podia me engolir no caminho.
a terceira não chegou em estação nenhuma. surgiu como surgem as coisas que fingimos não esperar: sem aviso, sem alarde, sem pressa.
tinha a calma das águas fundas e a precisão de quem lê o mundo pelo avesso. mexeu no que eu escondia, no que eu fingia não sentir, no que eu jurava que já tinha superado.
foi o mais próximo que eu poderia chamar de amor, a única pra quem minha voz tremeu na vontade de dizer fica.
mas ela trazia um tipo raro de silêncio, não o silêncio da fuga, nem o da dúvida, mas o silêncio de quem sabe que não pode ficar. a que diz “amo teu sorriso”, mas não fica pra ver mais uma vez.
os quase-amores deixam marcas feito corte de papel: pequenas, mas doloridas.
somos uma geração cansada. indisponibilidade emocional é a nova forma de dizer não tenho espaço pra sentir.
a que chegou rápido demais, a que queimava sem aviso, a que me fez tremer por dentro.
no fim, nenhuma ficou. e tudo bem. algumas pessoas só passam.
pensei em morte numa segunda feira cinza e chuvosa. não de forma romântica. de forma literal. quase matemática.
o medo pesou mais que um casaco molhado e, por um instante breve demais para ser mensurado, eu entendi que a condição da existência é a inexistência.
a vida é uma fila sem senha. ninguém sabe se está mais perto do começo ou do fim.
e fiquei me perguntando, com a água escorrendo pelo vidro, se todo dia vivido é um dia a mais ou um dia a menos.
o impacto veio seco. bruto. os carros alinhados feito um desastre não natural, um ruído que a natureza jamais assinaria. não ouvi nada por quarenta segundos. não senti nada por alguns também. o barulho na lataria pareceu ter sido dado diretamente em mim.
segundos. apagão. uma pausa tão rápida que quase levou tudo. eu senti em cada célula do meu corpo que ainda não ia partir, mas que basta um instante fácil assim pra perder a vida toda.
às vezes viver é só isso. ser lembrada, à força, de que tudo pode acabar rápido demais.
então fiz o que se faz quando a morte passa perto. disse a quem amava o que precisava ser dito. me embriaguei e ri com pessoas boas. uma comemoração pequena pra me lembrar que estou viva e o álcool pra anestesiar o medo de que quase findei.
a vida quase acabou e eu decidi que precisava começar de novo, como se tivesse ganhado um novo signo do zodíaco.
lembrei do meu último arrependimento e de como metaforizei os olhos dela como um vislumbre do céu e um paraíso particular.
quase morri. e percebi que eu a guardava no peito como quem guarda uma carta que nunca envia.
então falei. uma frase curta, simples, mas que foi abrindo espaço dentro de mim.
ela deixou de ser fantasma. deixou de ser expectativa. virou só memória organizada.
uma página dobrada dentro de um livro. uma história que existe, mas não pesa mais.
e eu, que continuei viva, fiquei livre pra escrever o resto.
preciso te falar que, nos caminhos da vida, às vezes dou passos que me lembram os caminhos teus. cruzo ruas com teu nome. vejo teu rosto em arte abstrata nos muros da cidade.
decorei tua fala. teu riso. teu choro. e, inconscientemente e quase inconvenientemente, tentei me separar de ti. como se tivéssemos duas fases. como se fôssemos matéria inerente.
eu te achei. não em espírito, intelecto ou alma.
mas em rosto. olhos. e sorriso.
os olhos não dizem nada como diziam os teus. e o sorriso não é insípido e cristalino tal como janela da alma, mas é bonito também. o rosto, ah, o rosto, muito tem de ti.
me pego olhando e penso céus, quando ela amar alguém, certamente esse alguém vai ser incrível.
nunca tive pretensão de me tornar esse alguém.
ela elogiou meu tênis, meus óculos, meu cabelo e me mandou mensagem às 23h perguntando ei, tá frio aí?
em algum momento, talvez, eu poderia ser incrível. mas em qual momento ela seria você?
então me desfaço dos laços e pinto um alvo de desgraça nas minhas costas. não sou incrível, mas também não sou escória.
como dizer que os olhos dela só são tão meus por me lembrarem de ti? caio na cova que eu mesmo abri onde enterrei minhas esperanças. e enterrei você também.
ela sorri pra mim quase que metodicamente. levanta o rosto dos papéis, ajeita a camisa e sorri. e eu sorrio de volta. às vezes finjo que não é comigo.
mas nem poderia ser.
um dia ela vai amar alguém que seja incrível. e eu, bom, eu ainda amo você.
que coisa é essa pensada na esquina acima da última mercearia? (08/07/2019)