Rua Oca – Onde tudo reverbera

As ruas sussurram memórias

  • minimalista

    são as pequenas coisas que me constroem
    coleciono detalhes sem perceber
    não é muito, obviamente, mas é daqui

    gosto do barulho da água fervendo
    como se algum dia eu tivesse aprendido a esperar
    acho que música ruim melhora no carro
    talvez porque o mundo ali dentro faz menos barulho que eu

    gosto dos passarinhos cantando quando acordo às cinco e quinze da manhã
    mesmo nos dias em que eu queria dormir a vida inteira

    o primeiro gole de vinho sempre amarra a boca
    gosto de cheiros doces
    a amburana tocada pelo sol
    guardando no calor alguma lembrança que perdi no caminho

    sou feita do miúdo
    do mínimo
    daquilo que quase passa batido
    do mesmo jeito que eu passo por tanta coisa sem saber direito o porquê

    são as pequenas coisas que me constroem
    porque o que é grande sempre escapa das minhas mãos
    e talvez eu só saiba viver assim
    recolhendo migalhas de mundo para não desaparecer de vez

    minimalista, 2025.

  • tatuapé

    Hoje cedo ela me avisou que eu estava fazendo tudo errado. De novo. Isso me irrita profundamente, porque ninguém deveria acertar tanto com essa voz de quem já cansou da nossa burrice.

    O que me incomoda não é o acerto em si, mas a confiança com que ela o carrega. Minha irmã fala como quem nunca errou na vida, como se estivesse entregando sentença e não opinião. Todos os meus amores passaram pelo crivo dela. Lembro de apresentar cada obsessão como quem tenta convencer um investidor no Shark Tank: ressalto os bons pontos, falo do gosto musical, descrevo a beleza com rigor quase científico.

    “Não vai dar certo.”
    É o que ela diz, sempre, com a calma de quem já viu o final do filme.

    E aí entra a teimosia. Ela destrói o próprio argumento com a arrogância. É nesse momento que eu perco a razão e passo a acreditar que ela está errada, só pra manter minha dignidade intacta. De repente, eu me vejo falando com a Suprema Corte instalada num apartamento antigo no coração do Tatuapé, onde ela julga vidas e amores sem nem levantar da cadeira.

    Lembro quando falei do meu último amor. Eu, completamente rendida, disse que as tatuagens dela eram lindas.

    “Se você chacoalhar uma árvore na Vila Mariana, caem trinta iguais e com menos problema do que essa louca aí.”

    Fiquei indignada. Como ela não conseguia enxergar o que eu via? Como não percebia o brilho, o riso, o desvio bonito do olhar? Como não entendia que, naquela árvore específica do interior, tinha caído uma que mexia comigo de um jeito diferente? Talvez porque ela conhece meus abismos melhor do que eu. Ela sabe exatamente onde eu caio, e com quem. E eu, teimosa, continuo acreditando que dessa vez o chão vai ser mais macio.

    Decidi que ia namorar num dia qualquer de um mês qualquer do ano passado. Minha irmã me ouviu, absorveu e reagiu como se eu tivesse acabado de declarar que estava partindo para uma missão em algum país em guerra que certamente seria citada nos livros de história depois como estatística de perda.

    Discordei como quem discorda de um alerta aleatório de saúde encontrado nos confins da internet sem nenhum respaldo científico.
    Talvez porque é mais fácil brigar com quem fica do que admitir o medo de escolher errado de novo.

    Errei. De novo.

    Às vezes fico tentando entender a ciência, o misticismo, a astrologia ou a simples sorte que ela usa para prever tão bem os desastres da minha vida. E mais ainda: como, depois de avisar, ela ainda encontra tempo para me consolar. De um jeito torto, obviamente. Mas presente. Às vezes penso que ela exagera nos alertas porque sabe que eu não sei cair devagar. Quando eu caio, eu desço até o fundo. E ela tenta evitar o estrago do jeito que consegue, mesmo que doa nos ouvidos. Continuo discordando.

    tatuapé, 2025.

  • acordeão

    teve janta com requinte torto
    e conversa que atravessou a noite
    o tempo voando feito pássaro perdido do bando

    e as mãos dela desfiavam pequenos exageros
    como quem costura silêncio pra não tremer

    o vinho ria da nossa cara
    porque virou ideia não cumprida
    e a taça daquela noite
    eu enchi com a existência torta do mundo
    essas cidades que colapsam por estradas que nunca seguem retas

    a perna chacoalhando um nervoso antigo
    desses que o corpo carrega sem saber por quê
    e cada frase dela chegava torta
    como se as ideias brigassem pra se fazer entender

    e havia um brilho discreto
    no ombro que a camisa não escondia
    não era luz
    mas parecia
    como se ela guardasse constelações
    num canto do corpo onde o mundo não alcança

    o beijo teve gosto de fruta desconhecida
    daquelas que a gente morde por engano
    e guarda o resto
    só pra ver se amadurece depois

    no dia seguinte
    tudo parecia dobrado
    feito acordeão velho
    na mão de músico cansado

    a cor do mundo era um rosa teimoso
    raspando no azul da parede
    um contraste de feira e poesia
    lembrando cordel sussurrado
    no fundo de um palco de melancolia

    pensei no beijo
    no quase
    no gosto que prometia pouco
    mas deixava vontade de tentar de novo

    porque tem fruta
    e tem gente
    que só adoça
    depois da segunda mordida

    acordeão, (07/12/2025)

  • a casa traz o vento úmido da baía do Guajará,
    observa Belém com suas onze molduras de luz

    tocou Betânia, tocou Caetano, tocou Elis
    as onze janelas me lembram saudade antiga
    de quem vê o mundo como se os pedaços se fragmentassem
    eu entendo essa saudade
    porque tem dias que eu também fico assim,
    cheia de paisagens
    que eu ainda insisto em tentar nomear

    às vezes acho que a gente ama
    como quem abre todas as janelas de uma vez,
    esperando que a brisa faça sentido
    mas se o amor não se instala,
    vira corrente de ar e lembrança sem corpo

    toda casa tem uma janela que insiste
    em lembrar quem não mora mais lá

    olhei para a casa das onze janelas mais uma vez
    e notei que talvez algumas janelas
    nunca se fechem
    porque tem ausências
    que também respiram.

    casa das onze janelas, Belém, 2025.

  • retrato

    Eu tinha 15 anos quando notei que um par de olhos pode ser a última coisa que vislumbramos ao dormir.
    Os dela eram castanho claros, cor de sol filtrado por cortina.
    Tinha um brilho bonito, meio tímido, meio cósmico, como se algum corpo celeste tivesse se distraído perto demais de mim.

    Uma vez ela veio me cumprimentar no meu aniversário, o único que passei na escola.
    Sempre fez parte das minhas pequenas frustrações nunca ter tido parabéns nos corredores. Só aconteceu naquele ano. Mazelas de quem nasce muito cedo, mas, ainda assim, eu jamais trocaria meu fevereiro.

    Neguei o abraço dela por pirraça.
    Ela tinha um cheiro específico demais e meu coração acelerava quando passava perto. Era tão assustador quanto efeito colateral de remédio.
    Nunca quis sair ao lado dela nas fotos. Tudo sobre ela me assustava, embora eu mal entendesse por quê.
    Ela não sabe disso e nunca saberá, mas foi quem acordou a poesia em mim.

    Eu a revi uma década depois.
    Ela já não era a pessoa da lembrança.
    Perdeu os traços de menina, ganhou expressão adulta, outra postura, outro tempo.
    E eu fiquei ali, olhando, tentando encaixar a mulher que vi na memória que eu guardava. Não encaixava.
    É normal. As pessoas trocam de rosto quando a vida passa por elas.

    E foi nesse reencontro meio torto que percebi uma coisa simples: eu não guardava mais ela.
    Guardava a sensação.
    Guardava o susto bom.
    Guardava a menina que eu fui aos quinze anos, tentando entender o que fazer com um coração acelerado demais.

    Foi aos 16 que vivi minha primeira grande perda.
    Perder minha avó não foi só perder alguém que eu amava.
    Foi como perder o eixo de uma casa.
    Ela era a força que mantinha tudo em movimento, mesmo quando ninguém percebia.
    E quando ela partiu, pareceu que cada pessoa da família se deslocou uns centímetros para longe, como móveis que rangem ao serem arrastados sem aviso.
    Aos 16, descobri que existem dores que não dá para devolver ao lugar de onde vieram.

    O meu Maria veio dela.
    Mas, se pudesse, eu teria pego mais coisas: a bondade, o jeito de unir pessoas, o não desistir, o amar com uma singularidade que só uma Maria como ela poderia ter ensinado.

    Aos 17 também descobri outro tipo de fotografia interna: o retrato da falta de escolha.
    Eu, acostumada a livros e palavras, tentando aceitar uma vida de números e plantas.
    Mamãe era categórica quando precisava me colocar no meu lugar.
    E sempre havia um tom escondido naquele “você não tem outra opção” que me engolia inteira.

    Quem diria? Mamãe acertou.
    Talvez tenha sido sorte, mas existe uma beleza grande demais em rodar tantos quilômetros ao mês, conhecer tanta gente, tanto lugar.
    E as palavras, as páginas e os livros… nunca me faltaram.

    Uma década depois, eu já tinha descoberto coisas demais sobre o amor, sobre família, sobre trabalho, sobre idas e vindas.

    Aos 27, entendi a lição mais amarga.
    Descobri que amar também pode ferir, e que, às vezes, entregamos às mãos de alguém a parte mais vulnerável do nosso peito.
    Aprendi a duras penas sobre lealdade, fidelidade e partidas.
    Sobre a crueldade de sorrisos trocados às escondidas que destroem murais inteiros de sentimentos construídos com cuidado demais.

    Aos 27, aprendi que amar é arriscar.
    E que há quedas que ninguém amortece ou precede.

    Vivi colecionando lembranças até descobrir que já não me encaixava nelas, como se eu tivesse virado a peça errada do meu próprio quebra-cabeça.


    Às vezes me sinto uma obra surrealista procurando espaço nas memórias antigas, todas pintadas em óleo que já secou.

    Ainda guardo os retratos.

    retrato (03/12/2025)

  • fundações frágeis

    Sempre que recebo visitas, eu arrumo a casa como quem prepara terreno para uma história que talvez nem aconteça. Separo as taças de vinho ou as canecas de cerveja, depende do gosto da pessoa. Preparo tábuas de queijo com um capricho quase cerimonioso, como se cada fatia fosse um pequeno memorial de boas intenções. E sempre faço a mesma pergunta, íntima demais para quem mal chegou:

    O que você gosta de beber pela manhã?

    Talvez seja só mania. Ou talvez seja essa coisa que tenho de procurar conforto nos detalhes, como pequenos lembretes de que aqui pode ser um bom lugar para ficar.

    Lembro da última visita que ficou tempo demais para ser chamada de visita. Não que ela tivesse pedido algo. Mas, de repente, eu estava mudando detalhes da casa que nunca me incomodaram antes. Uma almofada mais clara, uma planta que eu não sabia cuidar, a luz entrando por uma cortina que eu nem gostava tanto. O cuidado com os talheres e com o horário do jantar.

    Na época, eu disse a mim mesma que fazia sentido. Que eram ajustes pequenos. Mas hoje eu sei que não eram sobre estética. Eram sobre expectativa.

    É curioso como a casa entrega o que a gente tenta esconder. Ninguém percebe de imediato. Mas eu sei onde cada deslocamento começou. E sei exatamente onde terminou.

    Quando ela foi embora, os objetos continuaram ali, silenciosos, como cães abandonados que ainda esperam o dono voltar. E eu fiquei algum tempo encarando cada um deles, tentando entender como é que a casa ficou mais clara
    e eu, de alguma forma, escureci.

    Ela escolheu os pratos. E a jiboia, que ela tanto queria, encheu de pequenos insetos. Eu desaprendi a usar as panelas antiaderentes. A mesa, que respeitava o horário do jantar, virou apoio de roupas e mochilas.

    Quando a visita finalmente partiu, precisei desmontar os pequenos adereços que construí para a estadia dela. Desfiz tudo como quem assiste à própria autópsia, tentando entender em que momento a casa começou a desmoronar enquanto os travesseiros ainda guardavam o cheiro adocicado e arrogante do perfume dela.

    Tive outras visitas depois. Para algumas, mudei a playlist do jantar. Para outras, troquei a cor das toalhas. Em algum momento, deixei de escolher velas de baunilha, como gosto, e passei a acender verbena sem perceber.

    Minha casa nunca parece ser boa o suficiente, mas sigo acreditando que sou uma ótima anfitriã. Arrumo mesas, preparo jantares, acendo velas e invento atmosferas inteiras, como quem tenta oferecer abrigo antes mesmo de confirmar se alguém realmente pretende ficar.

    Às vezes me pego pensando se já fui recebida assim em outras casas por onde passei. Não lembro. Talvez algumas portas tenham se aberto só pela metade. Talvez eu mesma tenha aprendido cedo demais a entrar tirando os sapatos, falando baixo, agradecendo antes da hora.

    E, no fundo, percebo que sempre ofereci o que quase nunca recebi.

    Heráclito dizia que ninguém entra no mesmo rio duas vezes. Talvez por isso eu sinta que, a cada mudança feita por alguém que não ficou, uma parte minha foi desviando de curso.
    No fim, virei rio sem mapa, procurando onde deixei a primeira água.

    Às vezes a gente se desaloja só para oferecer abrigo.
    E quando eu finalmente cansar de mudar a casa por quem não fica, será que basta apagar as luzes para esquecer?

    fundações frágeis (01/12/2025)

  • itinerário

    não me importa mais a cor do teu cabelo
    nem se tua tatuagem tem linhas tortas
    ou cores destoantes

    eu só queria saber tua rota

    porque quando eu falo com Deus
    já não peço mais um amor bonito
    peço um amor que chegue devagar
    e, se tiver mesmo que ir,
    que avise a hora da partida

    estou cansada dos que chegam como bênção
    e somem como prova
    do desdém que o destino tem dos desamparados

    talvez por isso eu pergunte menos quem tu é
    e mais quanto tempo fica

    se tu gosta de rock dos anos 80
    pop dos anos 2000
    ou da nova MPB, pouco importa

    o que eu quero mesmo saber
    é que música vamos ouvir juntas

    não me importa mais
    se teu cabelo tem cor de sol,
    de luz apagada
    ou se dança acima dos ombros
    ou até a cintura

    me fala dos teus atrasos
    das tuas idas e vindas
    do que te tira
    e do que te traz de volta

    entenda
    pra quem vive de partidas
    há uma urgência em conhecer o itinerário
    muito mais do que o destino

    itinerário (30/11/2025)

  • radial leste

    radial leste.
    sexta à noite.
    a cidade inteira cuspindo faróis.

    as coisas pensadas aqui
    sempre me levam pra uma estrada sem rumo,
    como se eu dirigisse dentro de um engavetamento
    que ainda não aconteceu.

    ouvi no rádio:
    “eu odeio a praia, mas eu ficaria na Califórnia
    com meus pés na areia.”

    e eu pensei que a gente vive assim,
    odiando coisas que talvez nos salvassem
    e desejando coisas que talvez nos afogassem.

    me lembrei das vezes em que pensei em concessões.
    eu também odeio a praia,
    mas já me passou pela cabeça
    uma ou duas pessoas
    por quem eu abriria os pés na areia.

    luzes de natal me chamam atenção,
    mas tatuagens nos ombros e nuca chamam mais.

    e aí lembro do café de torra média,
    do terroir do sul de minas,
    e da cerveja de trigo
    que é leve,
    mas sempre me embriaga.

    gosto da beleza da imperfeição,
    mas talvez não dos prédios da capital.
    meu conceito de wabi-sabi
    é meio furado.

    tudo vira pensamento solto.
    o farol abre.
    eu não.

    radial leste (29/11/2025)

  • décima terceira letra

    na casa dela, todo mundo nasce e morre do M
    como se a letra fosse uma linha do destino
    costurada antes do nome

    uma arritmia cósmica
    uma montanha de dois picos
    o destino correndo pelo vale desenhado

    carregamos o mesmo traço
    as mesmas sílabas até certo ponto
    mas o espelho se quebra
    e dobramos em esquinas diferentes
    como quem segue para outros rumos e lugares

    o M dela me ressoa como saudade
    embora eu também o carregue cravado em mim
    é como se eu não pudesse vê-lo
    talvez por castigo
    afinal uso pouco

    meu M nasceu de uma única Maria
    o dela atravessou mulheres que vieram antes
    cada uma bordando a letra na seguinte
    como quem entrega destino em silêncio

    meu mundo nunca para no M
    o dela sempre colide por lá
    nossos caminhos começam no mesmo mar
    mas as águas que me levam
    são as mesmas que afogam ela

    e é curioso a quebra
    o que vem depois
    nada

    décima terceira letra (06/10/2025)

  • delírio da quinta hora

    tenho andado com uma calmaria emprestada dos meus santos.

    hoje tem festa, mas está frio.
    tenho essa mania feia de buscar motivos para faltar
    ou me atrasar.

    aliás, meus atrasos estão ficando recorrentes.
    acho que perdi o senso de pontualidade.
    nem sei se um dia eu tive.

    às vezes, a calmaria some.
    meu coração acelera.
    penso em quem vai estar lá.

    sei lá… tem horas em que nossos olhares se cruzam no corredor
    e eu fico me perguntando se, por algum devaneio festeiro,
    você vai aparecer.

    provável que não.

    não faz mal.
    mas que conste nos arquivos por aí:
    seria bom se estivesse.

    comprei roupas pra ir.
    até acessórios.

    será que tá bom assim?
    eu não costumava me perguntar essas coisas.
    céus… será esse teu efeito em mim?

    juntei minhas últimas forças.
    ultimamente tenho me sentido afundando na areia.
    às vezes tento saltar.

    dói os músculos.
    a mente.
    a coragem.
    o orgulho.

    não é legal parecer meio perdida o tempo todo.
    meu corpo parece papel em brasa.
    às vezes vejo pedaços se desprendendo
    e sinto o cheiro da própria carne queimando.
    meu estômago queima junto.

    não sei qual a função de juntar palavras
    mas parece beber água.
    eu escrevo nos momentos mais improváveis
    e, quando olho para baixo,
    tem demônios nos meus pés tentando extinguir minhas últimas bênçãos.

    tenho um compromisso às 19h.
    outro às 22h30.

    não queria estar lá.
    mas consta nos arquivos que
    não faria falta se eu não estivesse.

    delírio da quinta hora (17/05/2019)