são as pequenas coisas que me constroem coleciono detalhes sem perceber não é muito, obviamente, mas é daqui
gosto do barulho da água fervendo como se algum dia eu tivesse aprendido a esperar acho que música ruim melhora no carro talvez porque o mundo ali dentro faz menos barulho que eu
gosto dos passarinhos cantando quando acordo às cinco e quinze da manhã mesmo nos dias em que eu queria dormir a vida inteira
o primeiro gole de vinho sempre amarra a boca gosto de cheiros doces a amburana tocada pelo sol guardando no calor alguma lembrança que perdi no caminho
sou feita do miúdo do mínimo daquilo que quase passa batido do mesmo jeito que eu passo por tanta coisa sem saber direito o porquê
são as pequenas coisas que me constroem porque o que é grande sempre escapa das minhas mãos e talvez eu só saiba viver assim recolhendo migalhas de mundo para não desaparecer de vez
Hoje cedo ela me avisou que eu estava fazendo tudo errado. De novo. Isso me irrita profundamente, porque ninguém deveria acertar tanto com essa voz de quem já cansou da nossa burrice.
O que me incomoda não é o acerto em si, mas a confiança com que ela o carrega. Minha irmã fala como quem nunca errou na vida, como se estivesse entregando sentença e não opinião. Todos os meus amores passaram pelo crivo dela. Lembro de apresentar cada obsessão como quem tenta convencer um investidor no Shark Tank: ressalto os bons pontos, falo do gosto musical, descrevo a beleza com rigor quase científico.
“Não vai dar certo.” É o que ela diz, sempre, com a calma de quem já viu o final do filme.
E aí entra a teimosia. Ela destrói o próprio argumento com a arrogância. É nesse momento que eu perco a razão e passo a acreditar que ela está errada, só pra manter minha dignidade intacta. De repente, eu me vejo falando com a Suprema Corte instalada num apartamento antigo no coração do Tatuapé, onde ela julga vidas e amores sem nem levantar da cadeira.
Lembro quando falei do meu último amor. Eu, completamente rendida, disse que as tatuagens dela eram lindas.
“Se você chacoalhar uma árvore na Vila Mariana, caem trinta iguais e com menos problema do que essa louca aí.”
Fiquei indignada. Como ela não conseguia enxergar o que eu via? Como não percebia o brilho, o riso, o desvio bonito do olhar? Como não entendia que, naquela árvore específica do interior, tinha caído uma que mexia comigo de um jeito diferente? Talvez porque ela conhece meus abismos melhor do que eu. Ela sabe exatamente onde eu caio, e com quem. E eu, teimosa, continuo acreditando que dessa vez o chão vai ser mais macio.
Decidi que ia namorar num dia qualquer de um mês qualquer do ano passado. Minha irmã me ouviu, absorveu e reagiu como se eu tivesse acabado de declarar que estava partindo para uma missão em algum país em guerra que certamente seria citada nos livros de história depois como estatística de perda.
Discordei como quem discorda de um alerta aleatório de saúde encontrado nos confins da internet sem nenhum respaldo científico. Talvez porque é mais fácil brigar com quem fica do que admitir o medo de escolher errado de novo.
Errei. De novo.
Às vezes fico tentando entender a ciência, o misticismo, a astrologia ou a simples sorte que ela usa para prever tão bem os desastres da minha vida. E mais ainda: como, depois de avisar, ela ainda encontra tempo para me consolar. De um jeito torto, obviamente. Mas presente. Às vezes penso que ela exagera nos alertas porque sabe que eu não sei cair devagar. Quando eu caio, eu desço até o fundo. E ela tenta evitar o estrago do jeito que consegue, mesmo que doa nos ouvidos. Continuo discordando.
teve janta com requinte torto e conversa que atravessou a noite o tempo voando feito pássaro perdido do bando
e as mãos dela desfiavam pequenos exageros como quem costura silêncio pra não tremer
o vinho ria da nossa cara porque virou ideia não cumprida e a taça daquela noite eu enchi com a existência torta do mundo essas cidades que colapsam por estradas que nunca seguem retas
a perna chacoalhando um nervoso antigo desses que o corpo carrega sem saber por quê e cada frase dela chegava torta como se as ideias brigassem pra se fazer entender
e havia um brilho discreto no ombro que a camisa não escondia não era luz mas parecia como se ela guardasse constelações num canto do corpo onde o mundo não alcança
o beijo teve gosto de fruta desconhecida daquelas que a gente morde por engano e guarda o resto só pra ver se amadurece depois
no dia seguinte tudo parecia dobrado feito acordeão velho na mão de músico cansado
a cor do mundo era um rosa teimoso raspando no azul da parede um contraste de feira e poesia lembrando cordel sussurrado no fundo de um palco de melancolia
pensei no beijo no quase no gosto que prometia pouco mas deixava vontade de tentar de novo
porque tem fruta e tem gente que só adoça depois da segunda mordida
a casa traz o vento úmido da baía do Guajará, observa Belém com suas onze molduras de luz
tocou Betânia, tocou Caetano, tocou Elis as onze janelas me lembram saudade antiga de quem vê o mundo como se os pedaços se fragmentassem eu entendo essa saudade porque tem dias que eu também fico assim, cheia de paisagens que eu ainda insisto em tentar nomear
às vezes acho que a gente ama como quem abre todas as janelas de uma vez, esperando que a brisa faça sentido mas se o amor não se instala, vira corrente de ar e lembrança sem corpo
toda casa tem uma janela que insiste em lembrar quem não mora mais lá
olhei para a casa das onze janelas mais uma vez e notei que talvez algumas janelas nunca se fechem porque tem ausências que também respiram.
Eu tinha 15 anos quando notei que um par de olhos pode ser a última coisa que vislumbramos ao dormir. Os dela eram castanho claros, cor de sol filtrado por cortina. Tinha um brilho bonito, meio tímido, meio cósmico, como se algum corpo celeste tivesse se distraído perto demais de mim.
Uma vez ela veio me cumprimentar no meu aniversário, o único que passei na escola. Sempre fez parte das minhas pequenas frustrações nunca ter tido parabéns nos corredores. Só aconteceu naquele ano. Mazelas de quem nasce muito cedo, mas, ainda assim, eu jamais trocaria meu fevereiro.
Neguei o abraço dela por pirraça. Ela tinha um cheiro específico demais e meu coração acelerava quando passava perto. Era tão assustador quanto efeito colateral de remédio. Nunca quis sair ao lado dela nas fotos. Tudo sobre ela me assustava, embora eu mal entendesse por quê. Ela não sabe disso e nunca saberá, mas foi quem acordou a poesia em mim.
Eu a revi uma década depois. Ela já não era a pessoa da lembrança. Perdeu os traços de menina, ganhou expressão adulta, outra postura, outro tempo. E eu fiquei ali, olhando, tentando encaixar a mulher que vi na memória que eu guardava. Não encaixava. É normal. As pessoas trocam de rosto quando a vida passa por elas.
E foi nesse reencontro meio torto que percebi uma coisa simples: eu não guardava mais ela. Guardava a sensação. Guardava o susto bom. Guardava a menina que eu fui aos quinze anos, tentando entender o que fazer com um coração acelerado demais.
Foi aos 16 que vivi minha primeira grande perda. Perder minha avó não foi só perder alguém que eu amava. Foi como perder o eixo de uma casa. Ela era a força que mantinha tudo em movimento, mesmo quando ninguém percebia. E quando ela partiu, pareceu que cada pessoa da família se deslocou uns centímetros para longe, como móveis que rangem ao serem arrastados sem aviso. Aos 16, descobri que existem dores que não dá para devolver ao lugar de onde vieram.
O meu Maria veio dela. Mas, se pudesse, eu teria pego mais coisas: a bondade, o jeito de unir pessoas, o não desistir, o amar com uma singularidade que só uma Maria como ela poderia ter ensinado.
Aos 17 também descobri outro tipo de fotografia interna: o retrato da falta de escolha. Eu, acostumada a livros e palavras, tentando aceitar uma vida de números e plantas. Mamãe era categórica quando precisava me colocar no meu lugar. E sempre havia um tom escondido naquele “você não tem outra opção” que me engolia inteira.
Quem diria? Mamãe acertou. Talvez tenha sido sorte, mas existe uma beleza grande demais em rodar tantos quilômetros ao mês, conhecer tanta gente, tanto lugar. E as palavras, as páginas e os livros… nunca me faltaram.
Uma década depois, eu já tinha descoberto coisas demais sobre o amor, sobre família, sobre trabalho, sobre idas e vindas.
Aos 27, entendi a lição mais amarga. Descobri que amar também pode ferir, e que, às vezes, entregamos às mãos de alguém a parte mais vulnerável do nosso peito. Aprendi a duras penas sobre lealdade, fidelidade e partidas. Sobre a crueldade de sorrisos trocados às escondidas que destroem murais inteiros de sentimentos construídos com cuidado demais.
Aos 27, aprendi que amar é arriscar. E que há quedas que ninguém amortece ou precede.
Vivi colecionando lembranças até descobrir que já não me encaixava nelas, como se eu tivesse virado a peça errada do meu próprio quebra-cabeça.
Às vezes me sinto uma obra surrealista procurando espaço nas memórias antigas, todas pintadas em óleo que já secou.
Sempre que recebo visitas, eu arrumo a casa como quem prepara terreno para uma história que talvez nem aconteça. Separo as taças de vinho ou as canecas de cerveja, depende do gosto da pessoa. Preparo tábuas de queijo com um capricho quase cerimonioso, como se cada fatia fosse um pequeno memorial de boas intenções. E sempre faço a mesma pergunta, íntima demais para quem mal chegou:
O que você gosta de beber pela manhã?
Talvez seja só mania. Ou talvez seja essa coisa que tenho de procurar conforto nos detalhes, como pequenos lembretes de que aqui pode ser um bom lugar para ficar.
Lembro da última visita que ficou tempo demais para ser chamada de visita. Não que ela tivesse pedido algo. Mas, de repente, eu estava mudando detalhes da casa que nunca me incomodaram antes. Uma almofada mais clara, uma planta que eu não sabia cuidar, a luz entrando por uma cortina que eu nem gostava tanto. O cuidado com os talheres e com o horário do jantar.
Na época, eu disse a mim mesma que fazia sentido. Que eram ajustes pequenos. Mas hoje eu sei que não eram sobre estética. Eram sobre expectativa.
É curioso como a casa entrega o que a gente tenta esconder. Ninguém percebe de imediato. Mas eu sei onde cada deslocamento começou. E sei exatamente onde terminou.
Quando ela foi embora, os objetos continuaram ali, silenciosos, como cães abandonados que ainda esperam o dono voltar. E eu fiquei algum tempo encarando cada um deles, tentando entender como é que a casa ficou mais clara e eu, de alguma forma, escureci.
Ela escolheu os pratos. E a jiboia, que ela tanto queria, encheu de pequenos insetos. Eu desaprendi a usar as panelas antiaderentes. A mesa, que respeitava o horário do jantar, virou apoio de roupas e mochilas.
Quando a visita finalmente partiu, precisei desmontar os pequenos adereços que construí para a estadia dela. Desfiz tudo como quem assiste à própria autópsia, tentando entender em que momento a casa começou a desmoronar enquanto os travesseiros ainda guardavam o cheiro adocicado e arrogante do perfume dela.
Tive outras visitas depois. Para algumas, mudei a playlist do jantar. Para outras, troquei a cor das toalhas. Em algum momento, deixei de escolher velas de baunilha, como gosto, e passei a acender verbena sem perceber.
Minha casa nunca parece ser boa o suficiente, mas sigo acreditando que sou uma ótima anfitriã. Arrumo mesas, preparo jantares, acendo velas e invento atmosferas inteiras, como quem tenta oferecer abrigo antes mesmo de confirmar se alguém realmente pretende ficar.
Às vezes me pego pensando se já fui recebida assim em outras casas por onde passei. Não lembro. Talvez algumas portas tenham se aberto só pela metade. Talvez eu mesma tenha aprendido cedo demais a entrar tirando os sapatos, falando baixo, agradecendo antes da hora.
E, no fundo, percebo que sempre ofereci o que quase nunca recebi.
Heráclito dizia que ninguém entra no mesmo rio duas vezes. Talvez por isso eu sinta que, a cada mudança feita por alguém que não ficou, uma parte minha foi desviando de curso. No fim, virei rio sem mapa, procurando onde deixei a primeira água.
Às vezes a gente se desaloja só para oferecer abrigo. E quando eu finalmente cansar de mudar a casa por quem não fica, será que basta apagar as luzes para esquecer?
radial leste. sexta à noite. a cidade inteira cuspindo faróis.
as coisas pensadas aqui sempre me levam pra uma estrada sem rumo, como se eu dirigisse dentro de um engavetamento que ainda não aconteceu.
ouvi no rádio: “eu odeio a praia, mas eu ficaria na Califórnia com meus pés na areia.”
e eu pensei que a gente vive assim, odiando coisas que talvez nos salvassem e desejando coisas que talvez nos afogassem.
me lembrei das vezes em que pensei em concessões. eu também odeio a praia, mas já me passou pela cabeça uma ou duas pessoas por quem eu abriria os pés na areia.
luzes de natal me chamam atenção, mas tatuagens nos ombros e nuca chamam mais.
e aí lembro do café de torra média, do terroir do sul de minas, e da cerveja de trigo que é leve, mas sempre me embriaga.
gosto da beleza da imperfeição, mas talvez não dos prédios da capital. meu conceito de wabi-sabi é meio furado.
na casa dela, todo mundo nasce e morre do M como se a letra fosse uma linha do destino costurada antes do nome
uma arritmia cósmica uma montanha de dois picos o destino correndo pelo vale desenhado
carregamos o mesmo traço as mesmas sílabas até certo ponto mas o espelho se quebra e dobramos em esquinas diferentes como quem segue para outros rumos e lugares
o M dela me ressoa como saudade embora eu também o carregue cravado em mim é como se eu não pudesse vê-lo talvez por castigo afinal uso pouco
meu M nasceu de uma única Maria o dela atravessou mulheres que vieram antes cada uma bordando a letra na seguinte como quem entrega destino em silêncio
meu mundo nunca para no M o dela sempre colide por lá nossos caminhos começam no mesmo mar mas as águas que me levam são as mesmas que afogam ela
tenho andado com uma calmaria emprestada dos meus santos.
hoje tem festa, mas está frio. tenho essa mania feia de buscar motivos para faltar ou me atrasar.
aliás, meus atrasos estão ficando recorrentes. acho que perdi o senso de pontualidade. nem sei se um dia eu tive.
às vezes, a calmaria some. meu coração acelera. penso em quem vai estar lá.
sei lá… tem horas em que nossos olhares se cruzam no corredor e eu fico me perguntando se, por algum devaneio festeiro, você vai aparecer.
provável que não.
não faz mal. mas que conste nos arquivos por aí: seria bom se estivesse.
comprei roupas pra ir. até acessórios.
será que tá bom assim? eu não costumava me perguntar essas coisas. céus… será esse teu efeito em mim?
juntei minhas últimas forças. ultimamente tenho me sentido afundando na areia. às vezes tento saltar.
dói os músculos. a mente. a coragem. o orgulho.
não é legal parecer meio perdida o tempo todo. meu corpo parece papel em brasa. às vezes vejo pedaços se desprendendo e sinto o cheiro da própria carne queimando. meu estômago queima junto.
não sei qual a função de juntar palavras mas parece beber água. eu escrevo nos momentos mais improváveis e, quando olho para baixo, tem demônios nos meus pés tentando extinguir minhas últimas bênçãos.
tenho um compromisso às 19h. outro às 22h30.
não queria estar lá. mas consta nos arquivos que não faria falta se eu não estivesse.