O bar estava cheio demais para uma terça-feira.
Não era um cheio que lembrasse alegria. Tinha algo urbano e triste. Era feito de gente que prolonga a noite para atrasar a vida. Eu ouvia quando a porta se abria no final da escada. As pessoas tinham pressa. No fundo, eu desconfio que era uma forma de manter o controle de uma rotina que consome. Talvez fosse um jeito poético de dançar com a rotina e brindar com o destino.
A madeira escura das mesas absorvia a luz baixa. Garrafas alinhadas atrás do balcão como se fossem vitrais alcoólicos. Havia televisões presas às paredes transmitindo jogos que não eram assistidos. Nem tudo na vida é percebido, afinal. O som era um amontoado de pequenas colisões. Copos tocando copos. Cadeiras arrastadas. Risadas breves.
Do lado de fora, a cidade parecia úmida e elétrica. Eu sei por que toda vez que a porta se abria uma rajada de vento entrava e me passava pelos ombros feito um abraço rápido e sem jeito. Do lado de dentro, tudo tinha aquela penumbra confortável de lugares que sabem esconder pessoas. Talvez, até sentimentos.
Sentei-me perto da parede, de frente para uma mesa pequena demais para duas pessoas e grande demais para alguém sozinho.
Pedi uma cerveja. Veio gelada, com pequenas gotas escorrendo pela garrafa e formando um círculo úmido na madeira. Por alguns minutos, me ocupei em observar o lugar e as pessoas. Não era interesse genuíno, mas me impedia de olhar para minhas próprias ideias desenhadas em folhas rasuradas.
A garrafa deixava um círculo perfeito sobre a mesa. Passei o dedo pela borda fria, como se tentasse apagar um caminho. Alguns caminhos nunca se apagam. Não consegui. E então, lembrei. Outra mesa. Outra noite. Outro quarto.
A luz também era amarela. Abrandava o mundo e fazia os objetos parecerem mais íntimos do que eram. Havia duas garrafas de cerveja na mesa de cabeceira. A minha gelada demais para ser bebida com pressa. A dela já pela metade, embora ela segurasse com certa hesitação. Parecia exigir mais coragem que uma garrafa leviana num quarto de hotel merecia.
Ela estava sentada na beira da cama, uma das pernas dobradas sob o corpo. O cabelo preto derramado sobre os ombros e parte do rosto. O cabelo dela era denso, profundo, parecia absorver a luz e guardar um ou dois segredos. Nos braços, as tatuagens surgiam e desapareciam conforme ela se movia. Tinham qualquer coisa de sonho mal explicado, de mapa feito à mão por alguém que já esteve em lugares que não constam em atlas geográficos por aí.
Uma guitarra leve. Bateria constante. Uma melancolia dançante dos anos 80. A música vinha baixa do celular apoiado perto do travesseiro. Ela era devota desse tipo de som. Dizia que as canções entendiam o tempo e a vida. Eu concordo. Tem música que diz em três minutos o que algumas pessoas não conseguem formular em toda uma vida.
Ela tinha ideias sobre todas as coisas.
Não era daquele tipo de gente que fala demais e joga palavras ao vento como quem joga migalhas aos pombos. Era de um tipo raro como se já tivesse pensado o mundo antes de abri-lo em voz alta. Teorias inesperadas e gestos precisos. Falava do futuro como uma criatura arisca, possível de atrair apenas com silêncio e alguma delicadeza.
Nunca lhe faltavam palavras, mas até o silêncio dela era deliberado.
Naquela noite, porém, houve um momento em que ela não disse nada. Ficou com a garrafa entre os dedos, olhando o rótulo. As gotas caindo. Ela parecia querer atrasar o tempo.
Perguntei o que era. Ela demorou um pouco. Sorriu sem humor. Daquele jeito de quem se desculpa por existir antes de causar qualquer incômodo.
“Talvez… eu não deva beber na sua frente”, respondeu como se sussurrasse para o próprio destino. O destino sempre tão incerto.
Perguntei por quê.
Ela deu de ombros. Um gesto pequeno que não escondeu a vergonha.
Então ela me disse que não sabia explicar. Confidenciou que às vezes tinha impressão de que sempre estava fazendo alguma coisa errada. Como se houvesse uma voz dentro dela que se encarregava de transformar qualquer escolha em culpa.
O quarto ficou quieto por alguns segundos. A música continuava tocando, mas parecia longe. Como se viesse de outra construção, outro andar, outra vida.
“Você não devia escutar essa voz. Desconfio que ela te odeia.”, respondi.
Ela me olhou. Não foi um olhar rápido, nem desses que passam e seguem adiante. Foi demorado. Imóvel. Pareceu que algum lugar escondido no pequeno sótão onde ela guardava certas bagunças havia sido atingido. Um lugar difícil. Os olhos dela eram castanhos, mas não de calmaria. Ela carregava a cor do céu quando o temporal já está formado, mas ainda não caiu.
Ela bebeu um gole demorado. E ela riu.
Não foi um riso aberto, daqueles que se desenham em piadas ruins. Não foi um riso aberto e nem alto. Foi breve. Incrédulo. Parecia ter escapado antes que ela conseguisse conter. Ela sorriu como uma pequena concessão de crença mundana.
Mais tarde, quando a música mudou de faixa e a noite tivesse se encarregado de diminuir defesas, ela se aproximou. Veio sem pressa. Segurou meu rosto com as duas mãos. Um gesto perigosamente tranquilo.
O cabelo caiu um pouco para a frente e ela o afastou com dois dedos antes de me olhar de novo, dessa vez mais perto. Ela não desviava os olhos. Algumas pessoas fecham os olhos quando desejam. Outras quando têm medo. Ela não.
Havia nela uma atenção absoluta, quase uma curiosidade. Ela queria assistir o que estava acontecendo do começo ao fim. Certas intimidades devem ser vistas ao invés de suportadas no escuro.
Ela sorriu aquele riso pequeno e conspiratório.
“Eu amo os seus dentes”, soltou.
Devo ter feito alguma expressão absurda, porque o riso voltou, mais quente dessa vez. Então aproximou ainda mais o rosto do meu. Sentia sua respiração se misturando a minha.
“Eu beijaria até os seus dentes”, disse quase em segredo.
Naquela noite isso me pareceu apenas uma frase bonita e inesperada, mais uma entre tantas coisas improváveis que pareciam nascer nela com tanta naturalidade. Eu lhe disse mais de uma vez o quanto a achava genuína. Hoje sei que não são apenas palavras. São coordenadas. Você escuta uma vez e, sem perceber, volta sempre para o mesmo lugar.
Em algum momento da noite ela me beijou ao som da minha banda favorita. Nunca contei isso a ela. A música já estava tocando e, por um momento, me pareceu impossível decidir o que parecia mais irreal: o refrão, a boca dela ou aquela sensação estranha de que ela havia chegado na minha vida pontualmente como uma coincidência que sempre coincide.
Despertei quando um copo caiu no chão em algum lugar daquele bar. Parecia acordar de uma ressaca ou abrir os olhos e, sem preparação, já encontrar a luz do sol. A cerveja ainda estava sobre a mesa, mas a espuma já tinha descido e o círculo úmido continuava ali, um pouco mais largo e um pouco menos nítido.
Olhei em volta.
A música do bar tinha mudado. Agora havia a batida clara de outra canção antiga, luminosa demais para aquele horário. Não é possível atravessar a madrugada sem lhe dever nada. A música parecia brincar com a tristeza.
Paguei a conta e saí.
A rua estava fria. Um frio que acompanha. Entrei no carro e fiquei alguns instantes sem ligar o motor. Segurava a chave com força exagerada. Olhava meu reflexo no vidro do retrovisor. Dei partida. O rádio acendeu junto com o painel e, como se a noite tivesse decidido zombar das minhas desventuras, a mesma atmosfera musical continuava ali. Batidas antigas. Canções que ela cantava pela metade, no tom exato em que uma pessoa canta uma música que ama sem querer fazer espetáculo.
Desliguei o rádio.
A música continuou em mim e tocava em lugares que não têm botão de desligar.
Dirigi um tempo sem prestar atenção nas placas. A cidade ia ficando rarefeita, depois os postes, as casas. As luzes. Parei num posto de gasolina quase vazio. A luz branca tinha algo de hospital. Enquanto abastecia, vi uma mulher atravessar o pátio em direção à loja de conveniência.
Cabelo preto, jeans escuro e jaqueta de couro.
Meu corpo reagiu antes da razão e, por um segundo idiota, inteiro e humilhante acreditei que era ela. A mulher virou o rosto. Não era. Nunca é. Tive uma sensação desagradável de quem é flagrado por si mesmo cometendo pequenos atos que não inspiram orgulho.
Segui dirigindo até em casa. O apartamento estava escuro, exceto pela luz azulada do micro-ondas marcando uma hora que eu não acreditava. E nem queria saber. Tirei os sapatos na entrada. A geladeira fazia aquele zumbido baixo e monótono que a gente só escuta quando todo o resto está em silêncio.
É interessante, existe um silêncio que não é ausência de som. Talvez seja ausência de continuação. Fiquei no escuro sem acender a luz. No escuro as coisas ainda se conservam com a possibilidade de serem outras. Uma sala escura pode conter qualquer vida. Pode conter alguém no sofá. Pode conter o ruído de unhas felinas sobre o piso. Pode conter uma mulher de cabelo preto cantarolando um refrão antigo sobre governar o mundo enquanto abre uma cerveja e pergunta se você acredita que um dia teria coragem de ter filhos.
No escuro, tudo ainda é quase.
Acendi a luz e a verdade retomou suas proporções habituais. Não era exatamente um vazio de gente. Sempre existe um alguém. Sempre aparece em uma sexta-feira à noite e até em uma segunda pela manhã.
Sempre aparece diante de você em bares, sorri em postos de gasolina, atravessa a rua, pede outra rodada, manda mensagem em horários indevidos, entra e sai da vida com a mesma facilidade que se troca de faixa no trânsito. Sempre tem um risco pequeno e calculado de colisão. Mas sempre tem.
Era um vazio específico cujo nome nem o destino ousava dizer. Não tem forma porque foi feito do quase. Do que é interrompido. Do que é interceptado antes de chegar ao ponto final. Como um barco que nunca chega ao porto. E um marinheiro que nunca retorna para casa.
O que doía não era exatamente ela.
Era a casa que nunca cheirou a ela. Era o gato cinza que nunca pisaria naquele chão. Era a música que nunca tocaria na cozinha em uma manhã comum de domingo fazendo torradas. Era toda conversa que nunca atravessaria a realidade para além do território das hipóteses não comprovadas.
Passei meses acreditando que sempre pensava nela, mas o que me perseguia era a arquitetura inteira de um futuro que não existiu. A vida doméstica, secreta e quase ridícula em sua simplicidade que me pareceu possível.
Era pior, muito pior. Eu não sofria por uma presença, sofria por um mundo inteiro. Uma combinação específica de luz, voz, olhar e promessa que se desfez antes mesmo de aprender a durar.
Eu escovava meus dentes com uma força desnecessária. A escova vermelha desenhando círculos. Quando terminei, lembrei…
“Eu beijaria até seus dentes”.
Algumas frases são assim.
Você escuta uma vez… e passa o resto da vida voltando para o mesmo lugar.
