tô escutando a chuva lá fora.
é que eu não consigo dormir e, tirando os momentos em que divago olhando os campos, os carros e o controle manual das máquinas, eu não sei o que é parar.
não digo no sentido de parar o movimento físico, executando forças gravitacionais e afins. não falo da inércia.
falo dos pensamentos.
é que eles correm feito presa fugindo da matança.
e não repousam.
não param.
não abraçam o silêncio.
tenho andado triste olhando os campos.
e triste olhando os prédios.
tenho andado triste em silêncio.
e também triste ao ouvir as músicas que um dia alguém me enviou.
tenho andado triste.
tenho andado.
estou andando.
é que às vezes meu pensamento para em ti.
e me pergunto se ele esbarrou no teu.
ou se estou só andando.
mas queria fazer um adendo, não é só andando no gerúndio.
é andando triste, pois tenho necessidade de adjetivar as coisas, se é que essa palavra existe.
mas como eu dizia, a chuva tá caindo lá fora.
e eu tô aqui remoendo as escolhas,
como o sabor do chiclete que eu comprei mais cedo
a cor do moletom que eu comprei
a cidade que escolhi
as mensagens que não mandei
e a visita que eu não fiz
é que nesses momentos em que você anda triste enquanto está parado…
você não questiona só suas escolhas, você questiona a dos outros também.
fico me perguntando o que a gerente do RH levou em consideração para não me escolher na entrevista
ou o motivo de terem trocado 20 anos por alguns meses
também me pergunto o motivo de algumas partidas e, ah, algumas partidas sempre doem mais, tipo encostar osso outrora partido em superfície fria
me pergunto sobre decisões políticas
e paro de me perguntar,
esse assunto meio que me irrita.
tô aqui fazendo essa reflexão,
mas queria mesmo era dormir.
a existência, em dias chuvosos assim, dói.
e a saudade
a decepção
a ansiedade
o medo
e o desespero
doem também.
16/07/2019