Rua Oca – Onde tudo reverbera

As ruas sussurram memórias

  • rabisco

    Tô aqui pensando em coisas egoístas.
    E, como se não bastasse isso, senti uma sensibilidade ruim no canino superior direito.

    Tenho tido sonhos estranhos.
    Normalmente envolvem lugares frios
    e pessoas desconhecidas.

    Prefiro que sejam desconhecidas, inclusive.
    Já sonhei contigo numa noite de quinta-feira, após tomar uma ou quatro doses de tequila num bar. Achei estúpido. E me queimou o estômago.

    Passei mal durante 3 dias, mas o fato é que, quando cheguei na minha casa, às 4h37 da manhã, eu pensei em mandar uma mensagem. É que, veja bem, eu vi gente morrer e, talvez, o emaranhado de emoções quase me fez ligar pra ti. De alguma forma, eu ainda acho que posso fazer isso, mesmo sabendo que não posso.

    Guardo pequenas ilusões numa caixa tampada com otimismo.
    Shhh! Esse é meu maior segredo.

    Eu li a carta que aquela moça de 24 anos deixou, e lá ela ressaltava o quanto aquilo era opção dela. E eu me senti mal, pois ela estava só.
    E me senti egoísta. Criei em mim a culpa de que eu te deixei só.

    Céus! Ela escreveu com a mão trêmula e derrubou lágrimas naquelas folhas de caderno de pauta azul. Eu nunca gostei de pauta azul, já te disse isso?

    Ela agradeceu à mãe,
    se despediu do pai,
    se declarou pro namorado
    e deixou o notebook pro irmão.

    Às vezes, quando estou calculando coisas aleatórias, com seus fatores de correção e arredondamento para toneladas, eu lembro daquela moça. E de como a cidade dela tinha um nome engraçado.
    Lembro que ela sempre sorria pra mim nos corredores.
    E de como ela me perguntava se eu queria mais água na hora do almoço.
    Ela elogiava o tempero da salada de cenoura, e eu invejava a positividade dela.
    O que foi que aconteceu?

    Aí pensei que a vida é feita de pó.
    Às vezes o vento bate e leva.
    Às vezes o vento acumula.
    Às vezes, a gente sopra.

    Ela soprou tão forte, tão forte… que levou o pó, mas pareceu aqueles desastres com nome de gente.
    Abalou muitas estruturas. Inclusive as minhas.
    Tenho chorado desde então.

    Lembrei de muitas coisas.
    Lembrei dos tempos em que eu queria ser vento.
    E do tempo em que eu quis colocar proteções em ti, fazia uma redoma em volta de ti para evitar seu próprio temporal.
    E aí veio o pensamento mais egoísta da noite: tem alguém… fazendo isso?

    Hoje estou particularmente cansada, mas escutei uma música triste.
    E a tristeza doeu em mim.
    Não me canso de dizer que a catarse sempre pesa demais nos ombros meus.

    rabisco, 14/08/2019.

  • o terceiro ato

    Sejamos nada.
    Minha garganta está travada com o fel da tua língua.
    Teu amor me foi venenoso. O dia passa, mas de nada vale.
    Prendi-me nas palmas das tuas mãos para adiar minha partida.
    É uma vergonha!

    Quero um ato de covardia que não me imprima dores em papel branco manchado de tinta.
    Se baterem no portão, não atenda.
    Se for gente vendendo amor, saiba: não tens reciprocidade pra pagar.
    Essa moeda está em déficit hoje em dia, sempre.

    Não mais te amo.
    Mas eu, que tanto lhe amei, guardo essa pose séria de cão arrependido.
    Deixei os quebra-cabeças morrerem sozinhos no canto e as peças foram perdidas.

    Quantas vezes lhe pedi para não citar amor em vão?


    E ainda tenho, no átrio da memória, teu sorriso que me oxigena as veias e pulsa minha coordenação.
    Que absurdo!

    Quando o telefone tocou, eu atendi.
    Levantei arrastando o roupão e algumas memórias que grudaram nas pernas pra não me ver fugir.
    Tua voz arranhava a linha.
    Me veio essa vontade de viver numa cidade utópica, uma que não me lembrasse de ti.
    Lembrei-me do cheiro das tuas mentiras e desliguei.

    Eu te quero por não saber deduzir tua falta.
    Eu te quero por não saber desfazer o laço do teu abraço.
    E te odeio por pisar em mim feito formigueiro.
    Não é inverno ainda.

    Saiba que tenho chorado quatro horas por dia.
    E tua imagem me lembra a crise hídrica de São Paulo:
    se água salgada matasse sede, eu choraria por todos da capital.

    Quando me tomou as mãos e inverteu meu senso, de certo, estava errado.
    Não tenho mais tanto pra lhe contar, mas contei todas as vezes em que você bateu a porta e saiu em indignação.

    Se me toma o corpo, a devoção e as últimas preces…
    que será um pouco de ódio?

    O amor é feito areia em tuas mãos.
    Fechei os olhos. Tua veste de sopro era brisa.
    Partia. Longe.
    Não aqui.

    Escutei o canto da cigana.
    Teu ascendente sou eu.
    As cartas disseram: éramos nada.
    E estou feliz.

    Sejamos nada.
    … Nada é pra sempre.

    O terceiro ato, 20/06/2015.

  • silêncio

    tô escutando a chuva lá fora.
    é que eu não consigo dormir e, tirando os momentos em que divago olhando os campos, os carros e o controle manual das máquinas, eu não sei o que é parar.
    não digo no sentido de parar o movimento físico, executando forças gravitacionais e afins. não falo da inércia.
    falo dos pensamentos.

    é que eles correm feito presa fugindo da matança.
    e não repousam.
    não param.
    não abraçam o silêncio.

    tenho andado triste olhando os campos.
    e triste olhando os prédios.
    tenho andado triste em silêncio.
    e também triste ao ouvir as músicas que um dia alguém me enviou.
    tenho andado triste.
    tenho andado.
    estou andando.

    é que às vezes meu pensamento para em ti.
    e me pergunto se ele esbarrou no teu.
    ou se estou só andando.
    mas queria fazer um adendo, não é só andando no gerúndio.
    é andando triste, pois tenho necessidade de adjetivar as coisas, se é que essa palavra existe.

    mas como eu dizia, a chuva tá caindo lá fora.
    e eu tô aqui remoendo as escolhas,
    como o sabor do chiclete que eu comprei mais cedo
    a cor do moletom que eu comprei
    a cidade que escolhi
    as mensagens que não mandei
    e a visita que eu não fiz

    é que nesses momentos em que você anda triste enquanto está parado…

    você não questiona só suas escolhas, você questiona a dos outros também.

    fico me perguntando o que a gerente do RH levou em consideração para não me escolher na entrevista
    ou o motivo de terem trocado 20 anos por alguns meses
    também me pergunto o motivo de algumas partidas e, ah, algumas partidas sempre doem mais, tipo encostar osso outrora partido em superfície fria
    me pergunto sobre decisões políticas

    e paro de me perguntar,
    esse assunto meio que me irrita.

    tô aqui fazendo essa reflexão,
    mas queria mesmo era dormir.

    a existência, em dias chuvosos assim, dói.
    e a saudade
    a decepção
    a ansiedade
    o medo
    e o desespero
    doem também.

    16/07/2019