estraguei tudo,
de novo.

porque ela tinha o seu nome.
e, naquele instante,
você voltou a existir.

sempre volta.

volta nas guitarras dos anos 80.
nos refrões que ainda sabem
o som da sua voz
explicando, pela centésima vez,
por que aquela era a sua música favorita.

depois,
me recolhi.
cortei o cabelo.

meu sorriso sempre encontra mais luz
quando ele fica curto.

tomei um café modesto.
quente.
forte.

escolhi roupas.
velas de aniversário.

e tentei continuar o dia
como quem empurra um carro quebrado
morro acima.

mas, momentos depois,
eu estava no banheiro.
quente.
vapor.
azulejos embaçados.

e eu chorava.
pedindo a Deus
que lavasse você de mim.

não que te levasse.
não que te apagasse.
apenas que lavasse.

como vinho derramado
numa camisa branca.
como a fumaça
que continua nas cortinas
dias depois do incêndio.

mas você sempre fica.
nos vincos.
nas manchas.
nas partes
que a água não alcança.

você existe
nos nomes errados.
nas músicas certas.

nas orações
que faço sem perceber.
porque mesmo quando peço
para te esquecer,
ainda estou falando de você.

você continua aqui.
como a marca de um móvel
removido depois de anos.
não o móvel.
apenas a sombra.
o desenho pálido
que ficou na parede.

eu te guardei

em capuccinos do sul de Minas.
em velas de verbena.
em cervejas sem glúten.

te guardei
em coisas que nunca foram suas.
e que, ainda assim,
pertencem a você.
cada uma delas me sufoca.
como os escombros
de uma construção implodida.

eu me perco
nas estradas tortas
que escolhi percorrer
para te encontrar.

eu nunca pertenci a você.
e talvez essa tenha sido
a tragédia.

porque ainda hoje
eu assinaria meu nome
no rodapé
da sua ausência.

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