inferno astral

Eu nunca acreditei em inferno astral.
Aquário não acredita nessas coisas. A gente acredita em lógica, em autonomia emocional e na capacidade de ir embora antes das coisas ficarem complicadas demais. Sempre fui do tipo que observa, entende e, na dúvida, sai com certa elegância.


Até conhecer uma pisciana.


Ela tinha cabelo preto, desses que parecem guardar segredo, e uma tatuagem no braço que até hoje não faz o menor sentido: um cavalo marinho montado num tigre. Perguntei uma vez, numa dessas noites em que a luz amarela do quarto parecia conspirar a favor de decisões ruins.


“Por quê?”, perguntei, passando o dedo distraído pelo desenho.


“Porque ninguém espera”, respondeu, dando de ombros, como quem já sabia que eu não entenderia.


E era exatamente isso. Ninguém espera.


Ela não chegou fazendo barulho. Não ocupou espaço. Foi pior. Ela foi ficando. Como cheiro de chuva antes da água cair. Quando eu percebi, tudo já tinha sido reorganizado. As coisas estavam no lugar dela.


E então ela foi embora.


Sem escândalo. Sem explicação que resolvesse. Só foi.


Um amigo meu tinha uma explicação razoável e bem definida.


“É inferno astral”, ele disse, com a tranquilidade de quem nunca foi desmontado por ninguém.


Ri, mais por educação do que por convicção. Sempre é mais elegante culpar o universo do que admitir que alguém desmontou o que você nem sabia que tinha montado.


Resolvi seguir em frente.


A primeira mulher que conheci depois dela usava óculos grandes e falava de terapia cognitivo-comportamental como quem segura um mapa do mundo. O café onde nos encontramos cheirava a canela e gente tentando dar certo.


“Pensamentos disfuncionais são só interpretações equivocadas da realidade”, ela disse, ajeitando o cabelo atrás da orelha.


Assenti, interessado o suficiente para parecer presente. Concordei. Pedi outro café.


Ela era bonita. Inteligente. Coerente. Tudo nela fazia sentido.


Saí de lá com a sensação de que tudo tinha funcionado perfeitamente.


E absolutamente nada tinha acontecido.


Na semana seguinte, uma apareceu num fim de tarde de novembro. O céu estava daquele azul cansado, quase desistindo do dia.


“Algumas coisas não podem esperar”, ela disse, encostando ao meu lado como quem já tinha decidido tudo.


E não esperaram.


Ela fez tudo certo. Tudo mesmo. O tipo de presença que, em qualquer outro momento da vida, teria sido suficiente. Mais que suficiente.


Mas, no fim, ficou um gosto estranho.
Não era amargo. Não era doce.


Era nada.


Como beber água depois de esperar vinho.


Teve a das tatuagens bonitas. Coerentes. Cada traço explicável, cada símbolo com uma história bem resolvida.


“Essa aqui representa um recomeço”, ela disse, apontando pro pulso com um certo orgulho.


Sorri, acompanhando o entusiasmo. Achei bonito.


Mas nenhuma tatuagem dela tinha um cavalo marinho montado num tigre.


Nenhuma parecia existir apenas porque alguém decidiu que fazia sentido não fazer sentido.


Saí com uma que falava francês no meio do jantar. Do nada.


“Tu vois, c’est exactement ça…”, ela disse, sorrindo como se aquilo fosse parte do charme.


“Isso foi pra me impressionar?”, perguntei, já meio antecipando a resposta.


“Talvez”, ela respondeu, sem esconder a intenção.


Funcionou por alguns segundos. Era interessante. Era o tipo de detalhe que, em teoria, deveria bastar.


No dia seguinte, pensei em ligar.


Não liguei.


Teve também a estável.


Emocionalmente estável.


Ela dizia bom dia todos os dias no mesmo horário, como se o mundo pudesse ser organizado em pequenas repetições seguras.


“Gosto de coisas certas”, ela disse, com uma segurança que eu já não reconhecia mais.


Assenti.


E foi nesse momento que eu percebi que eu já não sabia mais o que fazer com coisas certas.


Com o tempo, tudo foi ficando meio inodoro e insípido.


As conversas, os encontros, os risos. Tudo parecia correto, educado, funcional. Como um sistema que roda sem travar, mas que também não surpreende.


Nada tinha graça.


Exceto, curiosamente, torneios de tênis e grandes rivalidades históricas.


Havia algo profundamente reconfortante em ver dois jogadores se enfrentando como se aquilo ainda importasse de verdade. Porque ali importava. Cada ponto carregava tensão, escolha, consequência. Nada era automático. Nada era morno.
Ali, pelo menos, o mundo ainda fazia sentido.


Talvez fosse isso.


Talvez eu estivesse procurando, em quadras distantes, a mesma sensação de desequilíbrio que ela deixou.
Encontrei meu amigo de novo.


“E aí, passou o inferno astral?”, ele perguntou, apoiando o cotovelo na mesa.


Olhei ao redor. Copos no lugar. Pessoas conversando. Vida acontecendo com uma normalidade quase ofensiva.


“Acho que não era inferno astral”, respondi.


“Não?”, ele insistiu.


“Não. Acho que era só ela”, falei, com uma calma que eu mesmo não comprava.


Ele riu.


“E isso passa?”, perguntou, quase curioso.


Pensei em jogar tarot.


Mas fiquei com medo da combinação de cartas. Vai que a espiritualidade resolve ser didática demais e me explica, com toda a delicadeza do universo, que ela já se foi, que alguém esbarrou na vida dela e fez mais sentido.


“Sei lá, talvez a gente possa culpar Mercúrio retrógrado”, respondi, meio amargurado.


Ele riu.


Eu também.


Já quase abrindo um chamado no SAC do universo.

inferno astral (03/2026).

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