idealização defensiva

Ela gosta de água com gás da garrafa vermelha. Sempre escolhe sem hesitar, como se aquela cor resolvesse pequenas indecisões do dia. Descobri isso cedo, junto com outras coisas que fui anotando sem perceber. As tatuagens surrealistas espalhadas pelo corpo, por exemplo. Não contam histórias lineares. São imagens soltas, meio fora do tempo, como lembranças de algo que talvez nunca tenha acontecido.


Ela me abraça quando a música muda de tom. Não pergunta. Apenas acontece. Quando a letra escorrega para o amor, para o encontro, ou para qualquer palavra que chegue perto demais do que a gente evita dizer. O abraço vem firme, breve, como se fosse um gesto aprendido em outro lugar. Em outro tempo.


Usa tênis preto quase sempre, camisa amassada e calça com rasgo no joelho. Carrega um ar de estrada mesmo quando está parada. Já me contou de cidades pequenas, de trabalhos que não duraram, de vontades que mudaram sem aviso. Fala do passado com a tranquilidade de quem não tenta corrigir nada. Eu escuto com atenção excessiva.


Não gosta de agridoce. Diz que confunde as papilas gustativas, que o corpo não foi feito para lidar com estímulos opostos ao mesmo tempo. Gosto dessa frase. Ela explica muita coisa sem perceber. Ainda assim, vive escolhendo caminhos tortos, aceitando convites improváveis, entrando em situações sem saber direito onde vai dar. Um senso de aventura desalinhado que, de algum jeito, conversa com o meu.


Ela percebe minhas manias. A fixação pela cor laranja, por exemplo. Principalmente quando aparece em tênis ou munhequeiras. Diz que é fácil me reconhecer de longe por causa disso. Eu nunca soube se isso era elogio ou constatação. Preferi guardar como cuidado.


Provavelmente a gente vai gritar o refrão de Head Over Heels num feriado chuvoso, descendo para São Paulo. A estrada molhada, o vidro embaçado, a música alta demais para conversas delicadas. Nessas cenas, tudo funciona. O tempo colabora. O silêncio não pesa. Não há esforço para existir.


Essas imagens sempre me pareceram sólidas. Organizadas. Como se já tivessem passado pelo teste do real. Não exigem decisão, nem risco, nem aquela exposição que costuma cobrar caro depois. Elas apenas se apresentam, completas, oferecendo uma espécie de repouso.


Só bem mais tarde, quase como quem tropeça num pensamento inconveniente, percebo que nenhuma dessas cenas carrega desgaste. Não há atrito, nem erro, nem o cansaço que acompanha qualquer convivência verdadeira. Tudo permanece inteiro porque nunca foi atravessado.


Talvez seja isso que a psicanálise tenta dizer quando fala de idealização. Não como exagero romântico, mas como defesa silenciosa. Um jeito de amar sem tocar. De construir uma história onde o outro ganha passado, gesto, gosto e futuro, mas permanece protegido do real.


Como casas antigas que a gente admira por fora, mantendo as janelas fechadas para que o tempo não entre. Não por falta de desejo, mas por medo de ver o que o tempo sempre faz quando é convidado a ficar.

idealização defensiva (06.02.2026)

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