resíduo

o que há de ser nós
se não uma nota de rodapé
que diz tanta coisa
como poderia não dizer?
mas ninguém ousou colocar no texto


dos desenhos dos teus lábios
que desmancham os meus
em súplicas tardias
nada ficou
nem obra
nem rascunho


quão triste é pensar nisso
depois de um dia bom
em que ondas de calor
flutuaram por entre nuvens de algodão


triste é pensar nisso nos dias ruins também
desses dias
em que até os oásis
não trazem água


penso na tua voz
dizendo coisas bonitas
enquanto tuas mãos
desenham tranças
no teu cabelo negro


e percebo
que o que eu chamava de nós
era só um instante
mal apoiado no tempo


porque enquanto ecoava em mim
feito casa vazia
em noite de vento
em ti
já era manhã


e o que ficou
não foi saudade
nem lembrança


foi isso
esse quase
esse resto


resíduo

Deixe um comentário