O aeroporto parecia um desses lugares onde o tempo entra em repouso. Simplesmente não passa. As pessoas sentadas, as malas alinhadas, o painel repetindo a mesma informação como um experimento que insiste no mesmo resultado.
“Passageiros do voo 3267 com destino a Belo Horizonte informamos que estamos trabalhando em capacidade máxima, por isso convidamos os passageiros dos grupos 3 e 4 a despachar sua bagagem gratuitamente.”
A mensagem se repetia. Mudava o destino, nunca a fala. Robótica. Em algum ponto ele se perguntou qual era o motivo de os voos estarem sempre em capacidade máxima, como se tudo estivesse permanentemente operando no limite do aceitável.
Pensou que a física explicaria aquilo com facilidade. Corpos tendem a permanecer no estado em que se encontram quando nenhuma força externa atua sobre eles. Não era resignação propriamente dita. Era inércia.
Sempre acreditou que a vida funcionava assim. Sistemas buscam o menor gasto de energia, o caminho mais econômico, o ponto onde o atrito diminui. Isso é biológico, físico e químico. O que exige força demais costuma estar fora do equilíbrio. O que dura encontra, cedo ou tarde, um estado estável. Não porque seja eterno, mas porque parou de lutar contra o próprio desenho.
Havia algo irônico naquele lugar feito de malas coloridas, filas e café superfaturado. Ele se levantou. O voo seguia atrasado. Apalpou o bolso da jaqueta apenas para conferir se os documentos estavam ali. Metódico.
Foi ali que lembrou da mulher que comprava ouro todo ano. Uma peça só, sempre. Dizia que o ouro era um metal estranho, resistente à oxidação, indiferente ao tempo, incapaz de enferrujar como o resto das coisas. Falava disso como quem fala de química básica, mas o que realmente explicava era outra coisa: valor não nasce do brilho, nasce da permanência. E permanência, inevitavelmente, valoriza.
Ela dizia que a entropia governa tudo. Que a tendência natural é a desordem. Por isso, manter qualquer coisa exige trabalho. Manter uma rotina, um gesto, uma ideia, um caráter. Permanecer não é passivo. É uma escolha repetida contra o caos. Por isso é difícil.
Ele pensou nas coisas que já não tentava mudar. Não por medo, nem por cansaço, mas por entendimento. Entender nunca é fácil.
Como podemos entender a escolha alheia se falhamos miseravelmente em entender as nossas? Pensou novamente nos sistemas buscando o menor gasto energético e imaginou como seria viver assim. Talvez, se aplicássemos isso à vida, não existisse tanta crise de ansiedade, tanto empurrão desnecessário contra o que já pede repouso.
Talvez viver fosse aceitar que nem tudo precisa ser acelerado, salvo ou corrigido. Algumas coisas apenas continuam. E, quando continuam sem esforço, talvez tenham encontrado o único lugar possível onde fazem sentido.
inércia, 2025.
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