Hoje cedo ela me avisou que eu estava fazendo tudo errado. De novo. Isso me irrita profundamente, porque ninguém deveria acertar tanto com essa voz de quem já cansou da nossa burrice.
O que me incomoda não é o acerto em si, mas a confiança com que ela o carrega. Minha irmã fala como quem nunca errou na vida, como se estivesse entregando sentença e não opinião. Todos os meus amores passaram pelo crivo dela. Lembro de apresentar cada obsessão como quem tenta convencer um investidor no Shark Tank: ressalto os bons pontos, falo do gosto musical, descrevo a beleza com rigor quase científico.
“Não vai dar certo.”
É o que ela diz, sempre, com a calma de quem já viu o final do filme.
E aí entra a teimosia. Ela destrói o próprio argumento com a arrogância. É nesse momento que eu perco a razão e passo a acreditar que ela está errada, só pra manter minha dignidade intacta. De repente, eu me vejo falando com a Suprema Corte instalada num apartamento antigo no coração do Tatuapé, onde ela julga vidas e amores sem nem levantar da cadeira.
Lembro quando falei do meu último amor. Eu, completamente rendida, disse que as tatuagens dela eram lindas.
“Se você chacoalhar uma árvore na Vila Mariana, caem trinta iguais e com menos problema do que essa louca aí.”
Fiquei indignada. Como ela não conseguia enxergar o que eu via? Como não percebia o brilho, o riso, o desvio bonito do olhar? Como não entendia que, naquela árvore específica do interior, tinha caído uma que mexia comigo de um jeito diferente? Talvez porque ela conhece meus abismos melhor do que eu. Ela sabe exatamente onde eu caio, e com quem. E eu, teimosa, continuo acreditando que dessa vez o chão vai ser mais macio.
Decidi que ia namorar num dia qualquer de um mês qualquer do ano passado. Minha irmã me ouviu, absorveu e reagiu como se eu tivesse acabado de declarar que estava partindo para uma missão em algum país em guerra que certamente seria citada nos livros de história depois como estatística de perda.
Discordei como quem discorda de um alerta aleatório de saúde encontrado nos confins da internet sem nenhum respaldo científico.
Talvez porque é mais fácil brigar com quem fica do que admitir o medo de escolher errado de novo.
Errei. De novo.
Às vezes fico tentando entender a ciência, o misticismo, a astrologia ou a simples sorte que ela usa para prever tão bem os desastres da minha vida. E mais ainda: como, depois de avisar, ela ainda encontra tempo para me consolar. De um jeito torto, obviamente. Mas presente. Às vezes penso que ela exagera nos alertas porque sabe que eu não sei cair devagar. Quando eu caio, eu desço até o fundo. E ela tenta evitar o estrago do jeito que consegue, mesmo que doa nos ouvidos. Continuo discordando.
tatuapé, 2025.
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