
teve janta com requinte torto
e conversa que atravessou a noite
o tempo voando feito pássaro perdido do bando
e as mãos dela desfiavam pequenos exageros
como quem costura silêncio pra não tremer
o vinho ria da nossa cara
porque virou ideia não cumprida
e a taça daquela noite
eu enchi com a existência torta do mundo
essas cidades que colapsam por estradas que nunca seguem retas
a perna chacoalhando um nervoso antigo
desses que o corpo carrega sem saber por quê
e cada frase dela chegava torta
como se as ideias brigassem pra se fazer entender
e havia um brilho discreto
no ombro que a camisa não escondia
não era luz
mas parecia
como se ela guardasse constelações
num canto do corpo onde o mundo não alcança
o beijo teve gosto de fruta desconhecida
daquelas que a gente morde por engano
e guarda o resto
só pra ver se amadurece depois
no dia seguinte
tudo parecia dobrado
feito acordeão velho
na mão de músico cansado
a cor do mundo era um rosa teimoso
raspando no azul da parede
um contraste de feira e poesia
lembrando cordel sussurrado
no fundo de um palco de melancolia
pensei no beijo
no quase
no gosto que prometia pouco
mas deixava vontade de tentar de novo
porque tem fruta
e tem gente
que só adoça
depois da segunda mordida
acordeão, (07/12/2025)
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