
Sempre que recebo visitas, eu arrumo a casa como quem prepara terreno para uma história que talvez nem aconteça. Separo as taças de vinho ou as canecas de cerveja, depende do gosto da pessoa. Preparo tábuas de queijo com um capricho quase cerimonioso, como se cada fatia fosse um pequeno memorial de boas intenções. E sempre faço a mesma pergunta, íntima demais para quem mal chegou:
O que você gosta de beber pela manhã?
Talvez seja só mania. Ou talvez seja essa coisa que tenho de procurar conforto nos detalhes, como pequenos lembretes de que aqui pode ser um bom lugar para ficar.
Lembro da última visita que ficou tempo demais para ser chamada de visita. Não que ela tivesse pedido algo. Mas, de repente, eu estava mudando detalhes da casa que nunca me incomodaram antes. Uma almofada mais clara, uma planta que eu não sabia cuidar, a luz entrando por uma cortina que eu nem gostava tanto. O cuidado com os talheres e com o horário do jantar.
Na época, eu disse a mim mesma que fazia sentido. Que eram ajustes pequenos. Mas hoje eu sei que não eram sobre estética. Eram sobre expectativa.
É curioso como a casa entrega o que a gente tenta esconder. Ninguém percebe de imediato. Mas eu sei onde cada deslocamento começou. E sei exatamente onde terminou.
Quando ela foi embora, os objetos continuaram ali, silenciosos, como cães abandonados que ainda esperam o dono voltar. E eu fiquei algum tempo encarando cada um deles, tentando entender como é que a casa ficou mais clara
e eu, de alguma forma, escureci.
Ela escolheu os pratos. E a jiboia, que ela tanto queria, encheu de pequenos insetos. Eu desaprendi a usar as panelas antiaderentes. A mesa, que respeitava o horário do jantar, virou apoio de roupas e mochilas.
Quando a visita finalmente partiu, precisei desmontar os pequenos adereços que construí para a estadia dela. Desfiz tudo como quem assiste à própria autópsia, tentando entender em que momento a casa começou a desmoronar enquanto os travesseiros ainda guardavam o cheiro adocicado e arrogante do perfume dela.
Tive outras visitas depois. Para algumas, mudei a playlist do jantar. Para outras, troquei a cor das toalhas. Em algum momento, deixei de escolher velas de baunilha, como gosto, e passei a acender verbena sem perceber.
Minha casa nunca parece ser boa o suficiente, mas sigo acreditando que sou uma ótima anfitriã. Arrumo mesas, preparo jantares, acendo velas e invento atmosferas inteiras, como quem tenta oferecer abrigo antes mesmo de confirmar se alguém realmente pretende ficar.
Às vezes me pego pensando se já fui recebida assim em outras casas por onde passei. Não lembro. Talvez algumas portas tenham se aberto só pela metade. Talvez eu mesma tenha aprendido cedo demais a entrar tirando os sapatos, falando baixo, agradecendo antes da hora.
E, no fundo, percebo que sempre ofereci o que quase nunca recebi.
Heráclito dizia que ninguém entra no mesmo rio duas vezes. Talvez por isso eu sinta que, a cada mudança feita por alguém que não ficou, uma parte minha foi desviando de curso.
No fim, virei rio sem mapa, procurando onde deixei a primeira água.
Às vezes a gente se desaloja só para oferecer abrigo.
E quando eu finalmente cansar de mudar a casa por quem não fica, será que basta apagar as luzes para esquecer?
fundações frágeis (01/12/2025)
Deixe um comentário