
acho que falei cedo demais.
não sobre amor, mas sobre conhecer.
me perdoa se tentei preencher palavras cruzadas
sem saber todas as letras;
ou se encaixei peças demais
em quebra-cabeças subjetivos
que nunca tiveram imagem completa.
a primeira chegou na seca,
no auge dos dias quentes.
uma presença súbita, como um haicai escrito sem precisão.
o sorriso dela me lembrava Akihabara:
as luzes piscando como se a cidade inteira
fosse feita pra desorientar viajantes.
e eu, sempre turista demais nos afetos,
fiquei ali parada, olhando,
tentando entender o sumiço dela no meio da estação.
sem resposta, sem riso, sem entendimento.
a segunda me chegou nos dias de inverno,
quando até os ossos mal colados doem ao tocar o chão.
ela tinha calor nas palavras, no sorriso, nas ideias,
mas o coração dela era fogo vivo:
uma chama bonita, intensa, mas que nunca decidia
se crescia ou se apagava.
precisei ir como quem corre de um incêndio descontrolado
em meio à palhada seca,
sabendo que a neblina podia me engolir no caminho.
a terceira não chegou em estação nenhuma.
surgiu como surgem as coisas que fingimos não esperar:
sem aviso, sem alarde, sem pressa.
tinha a calma das águas fundas
e a precisão de quem lê o mundo pelo avesso.
mexeu no que eu escondia,
no que eu fingia não sentir,
no que eu jurava que já tinha superado.
foi o mais próximo que eu poderia chamar de amor,
a única pra quem minha voz tremeu na vontade de dizer
fica.
mas ela trazia um tipo raro de silêncio,
não o silêncio da fuga,
nem o da dúvida,
mas o silêncio de quem sabe que não pode ficar.
a que diz “amo teu sorriso”,
mas não fica pra ver mais uma vez.
os quase-amores deixam marcas
feito corte de papel:
pequenas, mas doloridas.
somos uma geração cansada.
indisponibilidade emocional
é a nova forma de dizer
não tenho espaço pra sentir.
a que chegou rápido demais,
a que queimava sem aviso,
a que me fez tremer por dentro.
no fim, nenhuma ficou.
e tudo bem.
algumas pessoas
só passam.
elas (26/11/2025)
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