SP-330, KM 107

pensei em morte numa segunda feira cinza e chuvosa.
não de forma romântica.
de forma literal.
quase matemática.

o medo pesou mais que um casaco molhado
e, por um instante breve demais para ser mensurado,
eu entendi que a condição da existência
é a inexistência.

a vida é uma fila sem senha.
ninguém sabe se está mais perto do começo
ou do fim.

e fiquei me perguntando, com a água escorrendo pelo vidro,
se todo dia vivido
é um dia a mais
ou um dia a menos.

o impacto veio seco.
bruto.
os carros alinhados feito um desastre não natural,
um ruído que a natureza jamais assinaria.
não ouvi nada por quarenta segundos.
não senti nada por alguns também.
o barulho na lataria pareceu ter sido dado diretamente em mim.

segundos.
apagão.
uma pausa tão rápida que quase levou tudo.
eu senti em cada célula do meu corpo que ainda não ia partir,
mas que basta um instante fácil assim
pra perder a vida toda.

às vezes viver é só isso.
ser lembrada, à força,
de que tudo pode acabar rápido demais.

então fiz o que se faz quando a morte passa perto.
disse a quem amava o que precisava ser dito.
me embriaguei e ri com pessoas boas.
uma comemoração pequena pra me lembrar que estou viva
e o álcool pra anestesiar o medo
de que quase findei.

a vida quase acabou
e eu decidi que precisava começar de novo,
como se tivesse ganhado um novo signo do zodíaco.

lembrei do meu último arrependimento
e de como metaforizei os olhos dela
como um vislumbre do céu
e um paraíso particular.

quase morri.
e percebi que eu a guardava no peito
como quem guarda uma carta que nunca envia.

então falei.
uma frase curta, simples,
mas que foi abrindo espaço dentro de mim.

ela deixou de ser fantasma.
deixou de ser expectativa.
virou só memória organizada.

uma página dobrada dentro de um livro.
uma história que existe,
mas não pesa mais.

e eu, que continuei viva,
fiquei livre pra escrever o resto.

SP-330, KM 107 (25/11/2025)

Deixe um comentário