adeus

meu primeiro eu te amo carregou as mentiras de todo texto de amor sem dedicatória

nunca me vi nos olhos dela
ou em sua fala ensaiada
com sotaque arrastado

cada eu te amo carregava um “que bom é ter você aqui”
como dizemos pra um convidado
que esperamos que em alguma hora fosse embora

não era amor
era um trabalho de autoconhecimento

quando ela se foi eu chorei por cada bom dia dela que eu não receberia mais
mas não chorei por ela

e como poderia?

eu rascunhava poemas pensando que nunca poderia dedicá-los

meu primeiro amor, que nunca nem me tocou a boca, fez morada no peito
mas ela, de corpo e alma, sempre pareceu um empréstimo mal planejado da vida

e a cada mês, juros se multiplicavam

tive que deixá-la ir
mas também

jamais pediria pra ficar.

adeus, 2022.

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