Eu tinha 15 anos quando vi o amor pela primeira vez.
Eu não achei tão bonito como cantavam por aí.
O amor era uma garrafa de água turva que enfeitava uma estante vazia.
O amor era cercado de incertezas incomuns e irreais que faziam a chuva parecer vento.
O vento parecer grito.
Grito parecer música.
E música parecer som mudo.
E, se vi o amor aos 15… amei aos 17.
Amar era, então, beber uma garrafa de água turva de uma estante vazia, mas com um gosto estranhamente bom.
Era deixar secar as lágrimas ao vento, feito roupa no varal.
Era desenhar na tristeza um sorriso esboçado que destruía a base dos pés e não me deixava levantar.
Não tinha ali uma sombra que fugisse ao memorial interno que criei aos olhos, ao cabelo ou ao reflexo do sol na pele dos ombros cor de marfim.
Criei o mundo numa pedra de sabão que me percorria o canto dos lábios, drenando as palavras.
Fiz moradia no sentimento.
Era triste e inacabado como uma catedral abandonada na capital.
O meu solstício tinha mais horas de você.
O meu equinócio nunca foi equilibrado, e por isso te desenhei nas constelações e te transformei no meu eixo que coordena estações.
Mas, se eu tinha ali uma linha central que me puxava em sentido ao rumo gravitacional, nunca mais a vi.
Já perdi as horas tentando te encontrar no tempo, e perdi o tempo tentando encontrar o rumo.
Talvez seja uma predisposição genética que meus alelos me transportem para um tipo de amor paralelo, sem correspondência mútua.
Via o olhar meio calmo desenhado no vidro do ônibus, e na grade do portão laranja na esquina de cima.
Via na árvore na calçada.
No carro popular do vizinho.
Não terei mais sede por aí.
sede, 08/08/2016.
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