o terceiro ato

Sejamos nada.
Minha garganta está travada com o fel da tua língua.
Teu amor me foi venenoso. O dia passa, mas de nada vale.
Prendi-me nas palmas das tuas mãos para adiar minha partida.
É uma vergonha!

Quero um ato de covardia que não me imprima dores em papel branco manchado de tinta.
Se baterem no portão, não atenda.
Se for gente vendendo amor, saiba: não tens reciprocidade pra pagar.
Essa moeda está em déficit hoje em dia, sempre.

Não mais te amo.
Mas eu, que tanto lhe amei, guardo essa pose séria de cão arrependido.
Deixei os quebra-cabeças morrerem sozinhos no canto e as peças foram perdidas.

Quantas vezes lhe pedi para não citar amor em vão?


E ainda tenho, no átrio da memória, teu sorriso que me oxigena as veias e pulsa minha coordenação.
Que absurdo!

Quando o telefone tocou, eu atendi.
Levantei arrastando o roupão e algumas memórias que grudaram nas pernas pra não me ver fugir.
Tua voz arranhava a linha.
Me veio essa vontade de viver numa cidade utópica, uma que não me lembrasse de ti.
Lembrei-me do cheiro das tuas mentiras e desliguei.

Eu te quero por não saber deduzir tua falta.
Eu te quero por não saber desfazer o laço do teu abraço.
E te odeio por pisar em mim feito formigueiro.
Não é inverno ainda.

Saiba que tenho chorado quatro horas por dia.
E tua imagem me lembra a crise hídrica de São Paulo:
se água salgada matasse sede, eu choraria por todos da capital.

Quando me tomou as mãos e inverteu meu senso, de certo, estava errado.
Não tenho mais tanto pra lhe contar, mas contei todas as vezes em que você bateu a porta e saiu em indignação.

Se me toma o corpo, a devoção e as últimas preces…
que será um pouco de ódio?

O amor é feito areia em tuas mãos.
Fechei os olhos. Tua veste de sopro era brisa.
Partia. Longe.
Não aqui.

Escutei o canto da cigana.
Teu ascendente sou eu.
As cartas disseram: éramos nada.
E estou feliz.

Sejamos nada.
… Nada é pra sempre.

O terceiro ato, 20/06/2015.

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