Minas Gerais

Hoje estou sentindo uma palpitação que me dificulta respirar.
Queria pedir socorro. Abrigo.
Porém, sigo em frente no silêncio da estrada vazia.
A fumaça de nicotina e a respiração pesada me acompanham enquanto as árvores e as plantações se distanciam.

Não troco de música tem cerca de uma hora.
O Zé fica cantando “pra sempre fui acorrentado no seu calcanhar…”
e eu sinto um nó se formar na boca do estômago.
Que coisa é essa, senão a falta tua?

O celular vibra no banco do passageiro.
Ignoro.
As gotas de chuva começam a desenhar caminhos no vidro.
E aí lembrei de ti.
E do Zé.
E do calcanhar.
E de toda merda que já me aconteceu.

Lembrei que fomos uma ironia quase bukowskiana, mas com uma pitada a mais de tragédia.
Sempre achei o destino trajado de mau gosto.

Quando você, com teu jeito simplório, vinha me implorando amor, de forma quase cruel, eu só lhe entregava racionalidade.
E não, não me arrependo disso.
Quer dizer… a falta ainda me causa uma coceira dolorida num canto da mente.
Como brasa encostando na pele.

É engraçado: você tomou um gole de uma bebida ruim que eu te servi.
E eu fiz o mesmo, só que quem me serviu foi você.
No intervalo, talvez uma ou duas pessoas. Talvez ninguém.
Ainda não sei se invento paixões ou se só me apaixono fácil demais.

Queria te falar que minha história de amor não começada teve uma reviravolta que até o destino teria vergonha de escrever.
Às vezes me pego pensando no meu final e evito almoços de família ou confraternizações longas só pra manter a sanidade e o bom senso.

Hoje eu quis te contar várias coisas.
Sobre noites que preferi não lembrar.
Quis dizer que tomei coragem pra fazer umas coisas e, no final, nem chorei.
Quis dizer que arrisquei mais e ri incansavelmente enquanto as pessoas se perguntavam que merda estava acontecendo naquele começo noturno de sábado.

A chuva aumentou e agora eu ouvia trovões e raios desavisados riscando os céus.
Lembrei daquela tarde de domingo e de como cê fez chover gotas salgadas na minha camiseta vermelha.
Senti um tantinho de raiva.
Era momento de pensar em despedidas e em como a Taylor estava certa em I Almost Do.
Nem sempre estamos prontos pra uma segunda partida.
Desavisada.

Enquanto eu passava a divisa de estados, lembrei que o Zé ainda falava de colibris e devaneios tolos.
Ai, Zé… cê nem sabe, mas essa música me afaga a alma num colchão de espinhos.
Tem tristezas que são realmente bonitas.

Até o rio hoje parecia cansado.
Queria te dizer que estou quase esquecendo o som da tua voz e também não lembro bem da tua risada.
Às vezes me pego pensando se tudo foi uma memória inventada e se você existiu mesmo.
Bom, também não lembro muito bem das coisas todas que você me contou.
Mas eu lembro…

Ah, disso eu lembro…

Eu lembro dos teus olhos.
Das mudanças repentinas de cor.
Da tristeza.
Da alegria súbita.
Do medo.
Da desistência silenciosa.
Eles sempre disseram muito mais do que tuas palavras.
E por isso, você nunca conseguiu mentir pra mim.

Afinal, eu sempre digo…
pra que citar amor em vão?

Eu adoro Minas Gerais.

E o Zé continua:
“pra sempre fui acorrentado no teu calcanhar”.
Desligo o rádio.
Hoje não, Zé…

Minas Gerais, 11/03/2019.

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