Ela me surgiu como um clarão na madrugada. Olhos escuros feito um vinil rodando lento em uma vitrola antiga. Lembro da cerveja gelada. Do tempo que não passava enquanto ela me falava da vida de forma crua. Ferida. Sem rodeio em torno de falsas primeiras impressões.
Ela me beijou na volta para casa. Tocava uma das minhas músicas favoritas, sobre coragem comprada em doses baratas e gente perdida entre copos. Segurei seu rosto como quem vislumbra um atalho dos céus.
— Fiquei me perguntando se eu te beijaria agora ou teria que esperar outro momento… — falei em seu ouvido.
Ela riu como se já tivesse pensado sobre o assunto.
— Não tinha a mínima chance de você ir embora hoje sem eu te beijar.
Vi ela sair do carro e me dar um último aceno antes de entrar em seu prédio.
Sua roupa preta se dissolveu na escuridão e vi, pela última vez, o risco negro do seu cabelo se afastando.
Ela nunca me prometeu nada.
Antes de partir, me olhei no retrovisor. Os olhos sorrindo. A boca sorria também.
E, por entre as luzes da estrada, a risada dela ecoava.
Ah… quão bonito é se encantar por alguém.
Falávamos como quem acende velas na escuridão.
A cada mensagem, uma fresta de luz iluminava partes das nossas vidas.
Vozes que se escolhem e partilham histórias que não se contam em mesas cheias por aí.
Ela nunca me prometeu nada.
Porém, já havia visto desejos, cicatrizes e lembranças que não cabem no mundo de fora.
Nas minhas rotas infinitas pelo interior paulista, comecei a inventar desvios e atalhos apenas para me perder nela. Ela dizia, com uma leveza que só ela tinha:
“sempre que passar por aqui, me avise”.
Eu, que nunca soube ser breve, retrucava:
“você não é um acaso de viagem; é uma agenda programada, um compromisso”.
Mas… ela nunca me prometeu nada.
Eu a roubava toda semana.
Conhecia os mapas do seu corpo.
Os desenhos coloridos. E os surreais.
Tinha beijo com gosto de cerveja e com gosto de saudade premeditada.
Ela nunca me prometeu absolutamente nada.
Era porto diante dos nossos eventos caóticos.
Suas notas fiscais. Meus muitos quilômetros viajados.
Tudo começou a se desfazer numa quarta-feira qualquer.
Ela estava aninhada no meu abraço, quase entregue ao sono.
Um rock britânico se derramava pelo quarto, e ela ainda suspirava alguns trechos.
Eu a vi.
Senti.
Taquicardia.
Minhas batidas se ergueram em descompasso, como escola de samba em pleno carnaval.
Ruidoso demais para o silêncio íntimo.
Ela notou.
E ela, que nunca me prometeu nada quando deslizou minha foto para a direita… talvez tenha sentido que o destino nos cobraria uma promessa invisível.
O beijo daquela despedida teve sabor de adeus permanente.
Era uma tarde de sábado quando recebi sua mensagem confessando que tudo estava sério demais.
Tinha seus traumas e fantasmas guardados no porão.
E aquilo que tínhamos, mesmo sem nome, já ofendia os santos de suas tristezas do passado.
Ela nunca me prometeu nada, mas sua voz soou como quem desmonta um castelo.
Se o amor é líquido, naquela noite tinha gosto de malbec.
Me perguntei por dias o que devia fazer.
Foi num pub qualquer da Zona Leste que a lembrança dela explodiu entre luzes quentes e rock irlandês.
Eu lhe disse, como último ato de coragem:
sinto falta até das veias das suas mãos.
Ela me respondeu com um acalento que nunca tinha visto:
“se te prendo a mim agora, entende que é egoísmo?”.
Por favor, seja egoísta…
Esse foi meu último pensamento, mas não disse.
Fui embora.
Também é preciso coragem para ir embora.
Afinal, ela nunca me prometeu nada.
Naquela noite, deslizei várias fotos para a esquerda e para a direita, jurando que também nunca prometeria nada a ninguém.
ela se foi no mesmo trem que chegou, 29/09/2025.
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